Homens, Mulheres, Brancxs e Negrxs: o que dizem os testes de QI?

Não é de hoje que ouvimos sobre a superioridade masculina. Eles ocupam mais cargos políticos, mais cargos de CEO em empresas, recebem mais prêmios na ciência, entram muito mais pra história.  É, parece que eles vem sendo muito mais inteligentes, mesmo. Não, eu não estou falando do seu número de neurônios, ligações sinápticas, ou diferenças morfológicas do cérebro. Estou falando da enorme sacada de manterem as mulheres nessa posição de inferioridade, mesmo: não deixem-nas frequentarem a escola, votarem, se candidatarem a cargos políticos. E depois, quando nós mulheres conquistamos esses direitos, a sacada de continuarem duvidando da nossa capacidade, e fazendo com que nós mesmas duvidássemos dela. A sacada de forjarem dados científicos que corroboram sua superioridade, a sacada de fazerem da ciência algo tão androcêntrico que as mulheres sequer podiam conseguir legitimidade pra contestar todos esses “fatos”. A mesma sacada que colocou negros e negras como escravos, a mesma sacada que exterminou povos indígenas, a mesma sacada que instituiu uma sociedade de classes. É lógico que essas sacadas nem sempre foram tão “sacantes” assim, no sentido de que nem sempre foram conscientes. Mas foi um jogo de poderes que privilegiou uns em detrimento de outros, e que continua a privilegiar. Foi um jogo de poderes que criou verdades, como a “menor capacidade intelectual feminina”. Mas parece que esse jogo está mudando.

O cientista James Flynn, criador dos testes de QI, recentemente realizou um estudo com resultados bastante interessantes. Historicamente, os testes de QI sempre apresentaram diferenças entre gêneros, com homens se saindo em média melhor do que mulheres. Dessa vez, porém, o quadro foi diferente. Aplicando os testes de QI em pessoas de 14 a 18 anos da Austrália, Nova Zelândia, África do Sul, Estônia e Argentina, o cientista encontrou entre os homens uma média de 100 pontos, e entre as mulheres uma média variando entre 100.5 e 101.5, de acordo com o país. A exceção foi a Austrália, com uma média feminina de 99,5. A partir desse resultado, podemos fazer algumas considerações interessantes.

 

O cientista afirma que as médias de QI, em geral, vem aumentando com o tempo. Esse resultado mostra, porém, que o QI das mulheres tem aumentado mais do que o dos homens. Por quê? Não, as mulheres provavelmente não estão sofrendo mutações genéticas que as deixam mais inteligentes. Seu ambiente, porém, parece estar se tornando cada vez mais estimulante. Meninas e mulheres antes tinham sua educação negada ou subvalorizada, pouco ou nenhum acesso ao mercado de trabalho (ou pelo menos ao mercado de trabalho intelectual, já que algumas profissões as mulheres sempre puderam ocupar, especialmente as negras, como empregadas domésticas, babás, costureiras…). Nos últimos anos, porém, nossa inserção nesses espaços foi se tornando cada vez maior – embora ainda tenhamos muito chão a percorrer – e nossas possibilidades de vida foram diversificadas. O acesso a educação e ao trabalho intelectual não passaram desapercebidos para os testes de QI. É, homens, parece que a superioridade masculina está mesmo com os dias contatos. Está chegando a hora de reconhecerem a capacidade feminina, mesmo nas áreas que lhes são tão caras: o raciocínio lógico e abstrato medido pelos testes de QI.

 

O mesmo estudo, porém, traz resultados menos animadores quanto às diferenças entre negros e brancos. Embora as diferenças raciais também venham diminuindo, elas ainda são expressivas, e maiores quanto maior a idade das pessoas em questão, pelo menos nos Estados Unidos, onde o estudo foi realizado. Esses resultados mostram que a desigualdade racial continua sendo uma questão séria no país, e que precisa de atenção.

Embora esses estudos não tenham sido realizados no Brasil, acredito que são transponíveis, dentro de certos limites. Os avanços na busca por igualdade de gênero, racial e sexual existem, sem dúvidas. Mas esse processo não acontece de forma tranquila ou uniforme. Assim como as conquistas do movimento negro nem sempre beneficiaram igualmente suas participantes mulheres, as conquistas dos movimentos feministas nem sempre beneficiam igualmente suas participantes negras, por exemplo. E precisamos estar de olhos abertos pra isso. A luta continua.

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