Por que tanta masturbação na porta de uma Universidade?

Ontem, 26 de agosto, foi o Dia Internacional da Igualdade Feminina. Dia de pensarmos sobre como anda a (des)igualdade de gênero no mundo e, de forma mais específica, ao nosso redor. Inegavelmente tivemos muitos avanços nas últimas décadas. Agora podemos estudar, votar, trabalhar, usar alguns anticoncepcionais por conta própria, temos uma lei que tenta nos proteger contra a violência doméstica, dentre muitas outras conquistas.

igualdade generos

No entanto, ainda semana passada tivemos um acontecimento que ganhou repercussão na mídia como algo “bizarro”, “chocante” e “inesperado”: uma aluna da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), estudante do campus Praia Vermelha, na Zona Sul da cidade, foi assediada no ponto de ônibus em frente ao campus. Um homem, abrindo a braguilha da calça e mostrando-lhe o pênis, começou a se masturbar em meio à multidão. O homem foi detido e levado à delegacia, onde recebeu da polícia uma cópia da denúncia, com o nome e endereço da vítima – ato que a polícia declarou ser padrão.

Esse caso poderia ter chocado momentaneamente e ter sido rapidamente esquecido, jogado no rol das bizarrices, fruto de uma pessoa mentalmente doente, não fosse um detalhe: de raro, esse evento não tem nada. Com a divulgação do ocorrido entre as alunas da UFRJ-Praia Vermelha, diversos outros casos semelhantes vieram à tona. Não são raros, também, casos de assédio e estupro em outros campi da Universidade, como a Ilha do Fundão. Ainda assim, muitas pessoas insistem em dizer que homens que assediam e estupram são “doentes”, mas a realidade é bem pior: esses homens são homens comuns, com mulher, filhos, emprego, e não, não tem nenhum distúrbio psicológico. Doente não é o assediador, o estuprador, o agressor. Doente é nossa sociedade, que continua a formar estupradores, assediadores e agressores não como exceção, mas como regra. Os campi das nossas Universidades não são os únicos lugares onde as mulheres passam por tais situações, não são sequer os piores. Assédios recorrentes na porta de uma Universidade Federal de excelência, na zona sul – a queridinha do Rio de Janeiro – são sintomáticos de algo muito, MUITO pior – a violência sofrida pelas mulheres diariamente em toda a cidade, em todo o estado, em todo o país e pelo mundo afora.

Nos veículos midiáticos que divulgaram a notícia, mais um grave equívoco: foi passada como principal reivindicação das alunas o aumento do policiamento da área. Em tempos de estupro coletivo em UPP (http://g1.globo.com/rio-de-janeiro/noticia/2014/08/mprj-denuncia-policiais-militares-por-estupro-na-upp-do-jacarezinho.html), é no mínimo ingênuo confiar que a solução para a violência contra a mulher esteja apenas no aumento de policiamento, ou mesmo no número de seguranças no campus, em sua maioria terceirizados e muitos deles envolvidos em casos de assédio contra alunas. O que as mulheres da UFRJ precisam vai muito além disso: é necessário que policiais e seguranças estejam preparados pra protegê-las, ao invés de serem fonte de insegurança; é necessário que os campi tenham melhor iluminação; é necessário um planejamento urbano que dê maior segurança pras mulheres; e acima de tudo, são necessárias medidas educativas, para que as mulheres não mais sejam cotidianamente alvos de misoginia, agressões, assédio, desrespeito, desvalorização, objetificação sexual, hiper-sexualização e por aí vai. E aí, então, poderemos comemorar com mais alegria do que tristeza o Dia Internacional da Igualdade Feminina.

Fico por aqui, e deixo a nota de repúdio produzida pelo Coletivo de Mulheres da UFRJ, em relação aos casos de assédio no campus Praia Vermelha, e um relato sobre o tema publicado também pela página do Coletivo:

coletivo de mulheres

O Coletivo de Mulheres da UFRJ REPUDIA o assédio sofrido por estudantes do campus Praia Vermelha, da UFRJ. Como é possível observar no relato abaixo [https://www.facebook.com/video.php?v=956143101068706&set=vb.100000190754825&type=2&theater], nós, alunas da Universidade, não estamos seguras nem mesmo na porta da faculdade. Este episódio, que não é único, demonstra claramente o descaso com a integridade – tanto física quanto emocional – das estudantes, já que assédios, roubos e outros delitos ocorrem com frequência. Demonstra também a vulnerabilidade à qual as estudantes e dezenas de outras mulheres são submetidas todos os dias.
É importante salientar, ainda, que ocorrências do tipo são constantes não apenas na Praia Vermelha, mas também em outros campi, assim como fora da Universidade.
No entanto, o Estado, que teoricamente deveria promover a segurança das meninas que utilizam dos meios legais para fazer valer os seus direitos, entregou uma cópia da denúncia com nome e endereço da denunciante ao agressor. Não obstante a violência sofrida pela relatora do caso, ela não acaba nem nas instâncias que deveriam nos proteger.

O Coletivo de Mulheres da UFRJ presta sua solidariedade a essa e a todas as outras vítimas. E, mais além, solicita que outras mulheres que foram assediadas por esse indivíduo registrem a ocorrência na 10ª DP, que fica na Rua Bambina, em Botafogo.

e

Quando eu tinha uns 12 ou 13 anos, um homem se masturbou do meu lado, dentro do ônibus. Eu estava na janela e não tinha sequer como sair dali. Passei muitos anos achando que aquele indivíduo era alguém “doente”, um “maluco”. Para mim, aquela situação não era comum. Era o bizarro. A exceção, não a regra.

Porém, com o envolvimento com o feminismo passei a ter contato com histórias muito parecidas com a minha: homens que se masturbam no ponto de ônibus, dentro do metrô, na janela de casa, na porta do quarto. Disso, tirei a constatação mais simples, mas que demorei muito para admitir: não há doença ali. Se há doença, é uma espécie de doença social, que torna público o corpo da mulher, que torna comum sentir medo de pisar na rua, que considera doença o que é um desvio cultural.

Os recentes casos de assédio no ponto de ônibus da UFRJ me trouxeram essa memória e questionamento de volta. E, por isso, não ADMITO que a cultura do estupro, o patriarcado e o machismo latentes que dominam a sociedade sejam tratados como mera casualidade, como algo factual. Não é. Quando o tema é tratado assim, o assediador/estuprador se torna alguém distante, “o maníaco”, o cara que ataca mulheres na rua. E isso não é verdade! A maioria esmagadora dos casos de estupro e violência contra a mulher, por exemplo, ocorre dentro de casa. Por alguém da família. Alguém em que geralmente se tem confiança.

A quem queremos enganar quando clamamos por mais policiamento ou “segurança”? Que tipo de garantia isso nos dá? São tantos os casos de abuso pelas forças policiais que é impossível sequer confiar nelas! A mídia diz que é isso que queremos quando tornamos pública nossa indignação com esses casos. Desculpe decepcioná-los, mas… não, não é isso que queremos. Queremos que nossas pautas sejam levadas a sério, queremos que a cultura do estupro seja reconhecida e combatida, queremos uma mídia que combata os estereótipos que favorecem esse tipo de ataque. Queremos uma educação não sexista, queremos uma publicidade que não hipersexualize mulheres. Queremos a liberdade de andar na rua sem temer violência sexual.

Grande mídia, não coloque palavras nas nossas bocas. Antes disso, é muito simples: nos pergunte o que queremos!

Por Júlia Quinan, do Coletivo de Mulheres da UFRJ

Retirados de https://www.facebook.com/coletivodemulheresdaufrj?fref=ts

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