Vamos falar de paternidade

Aproveitando a ocasião do Dia dos Pais, comemorado ontem, quero falar não da data comemorativa, não do amor pelo meu pai, não de uma crítica sobre a data ser comercial, nada disso. Quero falar sobre o direito dos pais de serem pais de forma integral no início da vida de seus filhos e filhas. Do direito das mães de terem alguém com quem compartilhar o cuidado das crianças. E do direitos dos bebês de formarem um vínculo com seus pais, que os afetará pelo resto de suas vidas.

licenca-pai
licença paternidade Campanha sobre a licença paternidade. Ver mais em http://institutopapai.blogspot.com.br/p/campanha-da-licenca-eu-sou-pai.html

No Brasil, a lei garante às mulheres uma licença maternidade remunerada de pelo menos 4 meses, fruto de muitas lutas de movimentos feministas e trabalhistas. Quatro meses para ficarem afastadas do trabalho, ganhando seu salário, se dedicando ao cuidado do recém-nascido, criando vínculos emocionais, trocando fraldas, e por aí vai. Aos homens, no entanto, são garantidos reles 5 dias. Isso mesmo, eu disse 5 DIAS. E por que? Simples: porque ainda temos a arcaica ideia de que cabe às mulheres cuidar da casa e das crianças, e aos homens trabalhar e sustentar a família. Os 5 dias de licença (e no passado já foi apenas 1) sequer têm o objetivo permitir que o pai ajude com o neném, mas sim que ele resolva os procedimentos legais, como registro do bebê no cartório. E com essa mentalidade, ninguém sai ganhando: as mães ficam sobrecarregadas no cuidado do neném, tendo que realizar as tarefas domésticas somadas às novas tarefas exaustivas de alimentar, limpar, ninar, brincar, limpar de novo, enquanto ainda se recuperam do parto; os pais ficam privados do contato com seu filho ou filha, privados de desenvolver laços emocionais que serão importantes para a vida toda. De acordo com uma psicóloga especialista no assunto, voltar ao trabalho cedo demais, deixando mãe e bebê sozinhos em casa, com frequência faz com que os pais se sintam excluídos da dinâmica familiar, o que causa problemas em seu relacionamento.1 E para o bebê, claro, também é extremamente prejudicial ser privado da criação de laços afetivos com o pai, além de crescer em um ambiente possivelmente negativo devido à sobrecarga materna e aos problemas de relacionamento de seus progenitores.

Nossa cultura machista diz, ainda, que homens não devem ter as qualidades necessárias ao cuidado de crianças, como sensibilidade, delicadeza e cuidado, e questiona a masculinidade daqueles que expressam desejo de passar mais tempo cuidando da casa e dos filhos. Não preciso dizer, é claro, que esse é mais um pensamento arcaico e ridículo, pois tanto homens quanto mulheres podem e devem participar igualmente da criação de seus filhos, podem e devem amá-los da mesma forma, e nenhum cuidado parental coloca em risco ou em cheque qualquer masculinidade, feminilidade, sexualidade ou qualquer coisa que o valha.

Em alguns países pelo mundo, a licença paternidade é significativamente maior do que a nossa. Na Noruega, por exemplo, existe uma licença de quase um ano, e que pode ser dividida entre a mãe e o pai. Esse modelo reconhece o papel de ambos no cuidado com o recém-nascido, e abre espaço para as particularidades de cada família na divisão das tarefas.

Mas nem tudo está perdido: foi aprovada, em 2013, lei que garante licença de 4 meses pra qualquer um que adotar uma criança – seja pai ou mãe, em um casal hétero ou homossexual, e seja qual for a idade da criança, também. Tal lei já é um grande avanço, embora valha apenas para pais adotivos. E existem projetos de lei visando aumentar a licença paternidade para 15 dias, 30 dias, e até instituir uma licença parecida com a da Noruega e de outros países: uma licença parental, que poderia ser dividida entre pai e mãe.

É importante, porém, que não busquemos apenas mudanças nas leis. A forma como o tempo de cada um é utilizado, dentro e fora da licença paternidade, depende fundamentalmente da sua cultura. Precisamos mudar, de uma vez por todas, a velha mentalidade de que homens trabalham fora e mulheres cuidam da casa e da família. Precisamos começar a verdadeiramente dividir as tarefas, tanto no espaço doméstico, quanto no espaço público. As mulheres alcançaram grandes conquistas no direito ao mercado de trabalho. Falta, ainda, conquistarem a divisão de tarefas no lar. Continuemos na luta.

Para ler mais:

  1. http://delas.ig.com.br/filhos/2014-02-06/licenca-paternidade-cinco-dias-sao-suficientes.html

  2. http://www1.folha.uol.com.br/mercado/2013/10/1362158-homens-e-mulheres-ganham-direito-a-licenca-ao-adotar-crianca-de-qualquer-idade.shtml

  3. http://brasil.babycenter.com/a5900100/saiba-como-funciona-a-licen%C3%A7a-maternidade-e-quais-s%C3%A3o-seus-direitos

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s