Quando cai a luz

A chuva é um fenômeno bem poético.  É inspiradora, promove reflexões e acalma. Claro, não tenho a intenção de me referir às consequências trágicas da sua passagem pela cidade urbana. Elas são causadas pela má gestão governamental que há séculos, literalmente, não coloca em prática um plano de ações preventivas aos danos possíveis da erosão pluvial. Não é culpa da chuva, que já faz o trabalho dela há muito mais tempo. Ela faz um servicom uma frequência já previsível. Não é preciso ser nenhum especialista pra saber a época em que ela virá ou não com mais ou menos intensidade. O fato é que, quando ela vem um pouco mais zangada, acaba passando por cima das invenções mal feitas do ser humano. Este, não preparado, acaba no susto. É quando cai a luz.

Na minha rua é quase lei: choveu, faltou luz. Não, não é culpa dela, mas do ser autointitulado racional que não se precaveu aos seus efeitos – quem sabe se os fios passassem por debaixo de terra ou investíssemos em outras formas de obtenção de energia, mas parece não ser algo interessante. Enfim, é outra discussão – e todos terminam no escuro. Porém, uma coisa que ocorre chama bastante atenção. É sem querer, mas não tem erro. Sempre acontece.

A maioria das vezes é à noite. Todo mundo está na sua. Um na cozinha, outro no quarto, mais um na sala. Uma vidrada na tela do computador, outro na TV no outro cômodo e mais um celular. Todo mundo junto e separado. Quando, de repente, cai a luz.

É aquele “Opa! Eita…”. Alguns gritam “Êêêê!!…”, outros “Ôôôô!!…” não tão felizes. Porém, um movimento é quase certo. Sem aviso prévio, todos saem em busca de velas ou de lanternas e se unem em um lugar de fato. O papo que vem, logo de início, é a razão da queda da energia. Mas, em seguida, não tem erro. Vem a poesia da chuva.

O encontro e a nostalgia. Todo mundo se senta e começa a conversar sobre a vida. Longe do mundo externo, de tecnologias mais avançadas. Fala-se do passado, de coisas simples. Como no Natal, o brilho de todas as casas é igual, porém no escuro. Só não as estrelas, quem tem a chance de aparecer melhor. Aí, então, todos parecem viver em uma cidade pequena.

Quando a energia volta, acaba a poesia. Uns comemoram e a vida retorna – ou a sobrevivência? – como era antes. Eu não gosto tanto. Prefiro quando o brilho da escuridão invade a madrugada e eu vou dormir me imaginando em outra vida.

 

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