Cadê o tempo?

Você já pensou em fazer várias outras coisas? Ao menos não ter a obrigação de escolher uma coisa para fazer pelo resto da vida? Sim, porque, logo quando criança, nos perguntam: “o que você quer ser quando crescer?”. Julgamos à época simplesmente pelo o que e porque gostamos. Porém, a razão do interesse dos mais velhos é apenas uma: emprego.

Já parou pra pensar que a maioria das pessoas não será exatamente o que quer? Não conseguirá fazer o que um dia disseram para si mesmas o que lhes tornariam felizes? Se acomodam, se adaptam ou se mantém por simples questão de sobrevivência a um determinado emprego, área de atuação ou estilo de vida que não queriam e aceitam o tempo de lazer como sinônimo ao espaço no calendário de um ou dois dias na semana. Assim, não existe mais viver, só o sobreviver. A graça de cada dia vira apenas o seriado que assiste ao chegar tarde em casa, a novela diária, um filme qualquer que passa na TV, a academia antes ou depois do trabalho – que muitas vezes nem gostaria de fazer, mas se vê obrigada porque outros estão fazendo e acha que precisa modelar seu corpo para eles também. O que sobra não seria mais vida, mas apenas hooby. Este estão nem seria um movimento espontâneo, já que é regulado pelo próprio tempo para trabalhar.

Já foi bem pior. Até 1919, quando a OIT (Organização Internacional do Trabalho) concordou em fixar o trabalho para oito horas diárias, a jornada de trabalho durava quanto tempo o empregador quisesse e achasse necessário – não se limitava às dezesseis como dizem. Porém, convenhamos que, independente da simpatia pelo emprego, oito horas ainda são bastante coisa.

 

Inciso XIII do Artigo 7 da Constituição Federal de 1988

Art. 7º São direitos dos trabalhadores urbanos e rurais, além de outros que visem à melhoria de sua condição social:

XIII – duração do trabalho normal não superior a oito horas diárias e quarenta e quatro semanais, facultada a compensação de horários e a redução da jornada, mediante acordo ou convenção coletiva de trabalho; (vide Decreto-Lei nº 5.452, de 1943)

 

Diferente daquele tempo, a tecnologia já avançou bastante. Muito do que era feito por mãos humanas agora se dá por máquinas e a quantidade de mão-de-obra só aumentou em virtude do próprio aumento da população mundial. Junto com ela, a insatisfação com o trabalho. Aliado ao fato da maioria não ser o que gostaria, a desigualdade social é alta demais e os salários não são suficientes para suprir as necessidades básicas dos indivíduos, incluindo o lazer. Pra se ter uma ideia, os brasileiros formam o país campeão no índice mundial de casos de depressão no mundo. Grande parte da culpa é dada a rotina estressante.

Há uma coisa que me incomoda. Se a sociedade funcionasse de forma a promover o bem comum e a igualdade social, não haveria empresários ganhando tanto a partir do lucro e empregados – industriais, por exemplo – ganhando pouco depois de tanto suor, dado à mesma empresa (bom, uso o exemplo empresa e empresário, mas poderíamos comparar outros empregos, como jogador de futebol e médico, mas preferi essa outra comparação). Muito provavelmente o empresário é realizado no seu trabalho. Dificilmente o empregado, sendo que a proporção da quantidade deste em relação aos seus chefes, que lucram incomparavelmente mais, é bem maior.

Usando o próprio exemplo do pré-vestibular comunitário, muitos saem cansados de seus trabalhos e gostariam de – e precisariam! – descansar, mas sabem que para mudar de estilo de vida, precisam ter uma chance melhor de emprego e assim, também, poder fazer algo parecido consigo mesmas, podendo ganhar melhor. Sem contar as pessoas que tem filhos para criar e muitas vezes não tem com quem deixá-los. Essas são forçadas a desistir de seus sonhos pessoais por causa, ora, de suas famílias. Teriam opção? Injusto, não?

Por que, então, o tempo para o trabalho não é menor? Sabendo-se que, muito além das condições econômicas, não há simplesmente um tempo disponível para a maioria trabalhar em seus sonhos? Sabendo-se que existem empregos muitos mais estressantes que outros, por que a jornada de trabalho não é menor para todos?

“Mas é assim mesmo, a gente cresce de baixo”. “Pra crescer na vida tem que ralar muito!”. É preciso sofrer ou se abster de outras necessidades? Ainda há quem pense dessa forma, mas é uma ideologia bem antiga, do tempo em que a jornada de trabalho era maior do que as oito horas diárias.  O problema reside no fato do lucro ainda estar acima do bem-estar. Para que o sistema político-econômico em que vivemos funcione de forma a promover a real igualdade social, o tempo da jornada de trabalho teria que ser reduzido. Se todos os países aderissem à ideia e reduzissem em igualdade – digamos que um novo acordo internacional de quatro horas diárias –, o lucro, em média, de cada país não reduziria, apenas a velocidade de seu crescimento. Concluamos, por fim, o que é mais importante: Lucros cada vez maiores em menor tempo ou o tão sonhado tempo para viver?

 

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