É amor ou negócio? – Sobre monogamia e poliamor

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“Quem quer que tenha inventado o casamento era muito assustador. Tipo, ei você, eu te amo tanto que vou envolver o governo nisso para que você não possa ir embora.”

Em 2012, em Tupã, no interior de São Paulo, foi registrada em cartório a primeira união estável entre três pessoas no Brasil. Um caso de poliamor.

Decidi iniciar esse texto com essas duas frases. Vou começar pela primeira, porque hoje acordei meio careta: “Quem quer que tenha inventado o casamento era muito assustador. Tipo, ei você, eu te amo tanto que vou envolver o governo nisso para que você não possa ir embora.”

Brincadeiras à parte, a origem do casamento é mesmo algo interessante em que se pensar. A nossa visão de casamento hoje em dia está em grande parte baseada no que chamamos de “mito do amor romântico”. Não, não estou dizendo que não existe amor ou coisa que o valha. Estou dizendo que o dito “amor romântico”, aquele dos contos de fada, monogâmico, em que para cada pessoa existe uma outra predestinada do sexo oposto, e as duas se completarão e serão felizes para sempre com exclusividade uma sobre a outra, é uma invenção humana – e bastante recente, por sinal. Mas voltanto ao casamento: nem sempre ele esteve ligado a essa ideia de amor. Aliás, nem sempre ele esteve ligado a qualquer ideia de amor.

Inicialmente, o casamento surgiu com dois objetivos: garantir os direitos de propriedade e controlar a sexualidade feminina – que, em última instância, também era pra garantir a propriedade. Isso porque, com o surgimento da propriedade privada (ao contrário das “terras comuns” existentes anteriormente), surge também a herança, ou seja, a passagem das propriedades para os descendentes. Para isso passa a ser necessário – mais do que nunca – ter certeza da paternidade. Nesse contexto, isso significa garantir a exclusividade sexual da mulher, para garantir que os filhos são seus. Conclusão: quem criou o casamento não o fez por um amor tão assustadoramente grande como sugere a frase inicial desse texto. A não ser que estejamos falando de alguma forma de amor pelos bens privados, mas certamente não um grande amor pelo cônjuge. Justamente por isso a monogamia, na prática, teve tendência a ser restrita às mulheres: as relações fora do casamento sempre foram mais bem aceitas para os homens, e repudiadas para as mulheres; muitas poligamias se basearam no casamento de um homem com várias mulheres, mas poucas funcionaram da forma oposta.

Tendo esclarecido isso, vamos voltar ao tal amor romântico. Em algum momento da nossa história, algo entre os séculos XII e XVIII (há controvérsias), surge essa idealização das relações amorosas, e mesmo assim nem sempre ligada ao casamento. Na Grécia antiga, por exemplo, o amor considerado mais puro e verdadeiro era aquele entre um homem adulto e um rapaz jovem, não entre um marido e sua esposa. Com o tempo, o amor romântico foi sendo transferido para o casamento, com o forte influência das obras de arte – os grandes romances de livros, contos, peças teatrais, cinema etc – e também da Igreja, com a instituição do casamento como um sacramento católico. Assim, o amor romântico e a monogamia foram se fortalecendo progressivamente no Ocidente, até o ponto em que sua origem foi esquecida, e sua verdade tornou-se naturalizada e quase inconstestável. Quase. É aqui que vamos voltar à segunda frase.

Em 2012, em Tupã, no interior de São Paulo, foi registrada em cartório a primeira união entre três pessoas no Brasil. Um caso de poliamor.

Ainda que marginalmente, formas não-monogâmicas de relacionamento foram mantidas, e recentemente voltaram a se fortalecer. Temos, hoje, alguns movimentos nesse sentido, que se tornam cada vez mais fortes: desde formas que permitem apenas o envolvimento sexual casual com outros parceiros (como relacionamentos abertos e swings), até formas que admitem afetos plurais (como o poliamor e as relações livres). Cada uma dessas formas de se relacionar possui suas especifidades, das quais não tratarei aqui. No geral, o que todas essas formas não-monogâmicas questionam é a obrigação da exclusividade. Usarei o poliamor como exemplo, apenas porque o conheço um pouco melhor do que os demais modelos.

O poliamor não pre-determina com quantas pessoas você pode ou não se relacionar, nem de que forma. Cabe ao casal – ou trio, quartero, quinteto… – decidir como é a melhor forma de levar a relação. Pode ser um homem com uma esposa e uma namorada. Pode ser uma mulher com dois namorados e uma namorada. Podem ser três pessoas namorando entre si. Pode também ser só um casal, sem mais ninguém. Pode ser o que os envolvidos quiserem. O importante é respeitar as outras pessoas como seres humanos autônomos, que não são propriedade de ninguém. Nesse contexto, o ciúme perde o sentido – e a força. A outra pessoa não é sua, e não precisa ficar só com você o tempo todo, ela não precisa suprir todas as suas necessidades, e nem você as dela.

Defender o poliamor significa desafiar o machismo – nessas relações o gênero não importa, o direito de todos é igual –, a heteronormatividade – todos são livres pra se relacionar, seja com homens, mulheres, cis*, trans*, gêneros neutros, interesexos… – significa desafiar todo e qualquer sistema de opressão.

Por fim, quem defende o poliamor não pretende dizer que o certo é amar mais de uma pessoa ao mesmo tempo. Quem defende o poliamor quer, apenas, que se reconheça que amar mais de uma pessoa é possível e aceitável. O problema não é o casal monogâmico, e sim a monogamia institucional, que não permite mais de um parceiro no plano de saúde, no cartório e por aí vai. Mas isso já está mudando.

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cena do filme “Vicky Cristina Barcelona”, que levou pras grandes telas um exemplo de poliamor.

Para saber mais, alguns links interessantes:

http://www.youtube.com/watch?v=H3SbBZNotuc

http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2014/02/entenda-o-poliamor-e-as-pessoas-que-se-relacionam-livremente-4406970.html

http://aquelasmulheres.tumblr.com/post/74082902329/monogamia-liberdade-e-feminismo

http://amoreslivres.wordpress.com/2013/07/24/diferencas-entre-poliamor-e-relacoes-livres-delineando-alguns-conceitos/

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