Aniversário da UPP: quem comemora?

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Fonte: “UPP Providência comemora quatro anos de funcionamento”, do site da Subsecretaria de Comunicação Social, publicada em 26/04/ 2014 e disponível em: http://www.rj.gov.br/web/imprensa/exibeconteudo?article-id=2049359

 

No último sábado fiz uma visita a trabalho na comunidade do Morro da Providência, no Centro do Rio de Janeiro, a fim de redigir uma reportagem. Foi a minha segunda vez no local. A primeira havia sido no final do ano passado, quando conheci mais uma das belas vistas da cidade, do alto da escadaria que dá acesso à Igreja Nossa Senhora da Penha. Naquela vez, sem muita orientação, cheguei para assistir a um documentário sobre as expulsões compulsórias do estado. Desta vez, guiado, sem querer acabei chegando em um dia diferente dos demais. A Unidade de Polícia Pacificadora local estava comemorando quatro anos e fazia uma festa.

 

A Providência é a primeira favela da América Latina, formada em 1897 a partir de militares que buscavam residências, após lutarem na Guerra de Canudos. Como acharam sua vegetação parecida com a que viram na cidade em que batalharam, Canudos, apelidaram o local de Morro da Favela, onde, então, nasceu o termo “favela” como referência à comunidades e não mais apenas como planta. Muitos anos mais tarde, em 2008, o papel se mostrou invertido, quando militares investiram contra a população e terminou matando três jovens. Em contrapartida, foram apedrejados e expulsos do morro.

Já em 26 de abril de 2010, houve um incêndio que destruiu um mercado popular, abrigo de dezenas de barracas em estado legal de utilização. Na época, o governo do estado e do município discutia com a população a transferência do mercado para a construção de um teleférico. Por essa razão, acredita-se que o fogo tenha sido criminoso.

 

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Incêncidio no mercado popular da Central do Brasil. Imagem disponível em: http://celioporcelio123.blogspot.com.br/2010_04_01_archive.html

 

Após o incêndio, o teleférico foi construído, porém nunca funcionou. Moradores também já foram removidos por conta dele. Sabe-se que houve superfaturamento, mas não para onde foi essa verba. Já o novo mercado não é completamente ocupado hoje em dia. Devido aos elevados preços dos alugueis, muitos foram obrigados a abrir o seu comércio na calçada em frente ao antigo mercado. Somado ao desconforto, não há liberdade enquanto os policiais municipais rondam, impedindo o levantamento das barracas e apreendendo os produtos. Apenas às tardes dos finais de semana, quando a guarda vai embora, os vendedores recuperam seu espaço.

 

É evidente o histórico descontentamento da ação da população contra a força de segurança estatal. Já nessa última semana, a população estava inconformada com a polícia, pois havia entrado na casa de moradores sem ordem de justiça. Para o trabalho em grupo, combinamos não deixar nossos pensamentos influírem na opinião dos moradores entrevistados. Porém, a visão que tive foi exatamente a que imaginei observar e a mesma vista em outras comunidades, inclusive ao pé da que resido: uma festa montada ao estilo infantil, em que os únicos a comemorar eram crianças. Não é difícil saber o porquê, nem mesmo para a própria polícia: um sistema falho de segurança, opressor àqueles a quem julga proteger, não esperaria a presença de cidadãos locais. Com um histórico de extermínio nos quase 10 anos de existência, suas ações, sob o aval governamental, vão além do tráfico, mas à perseguição da população negra e favelada. A comemorar, resta, então, apenas uma fachada com a presença de inocentes que não tem noção de tudo isso.

A dinâmica das UPP’s não foge ao comportamento dos policiais militares antes da invenção dessas unidades nas favelas, assim como dos soldados do exército em invasão, em 2008, e também dos guardas civis, bem documentados na década de 80 no filme “Santa Marta: duas semanas no morro”, onde se mostram sendo de igual ideologia. A diferença, no momento presente, se dá pela emergência em se exibir uma cidade segura para os jogos da Copa, e, de quebra, se ostentar comunidades pacificadas abertas à visitação turística, como um fabuloso safari. Tudo em prol do lucro privado.

 

Enquanto as esferas públicas trabalharem com o intuito de mostrar uma cidade passível de investimento, transparecerá apenas instabilidade erguida sobre as lágrimas de uma população pobre, sofrida e ameaçada. Não obstante, essa mesma se descobre com mais força a cada injustiça e não desiste de lutar. O povo favelado tem uma história de garra e a Providência carrega a sua origem. Ela e nenhuma outra favela serão vistas comemorando aniversário desse sistema, porém erguendo-se pelo seu reconhecimento e direito à cidade.

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“Dona Fátima, que teve o filho, Hugo Leonardo, morto em 2012 por policiais da UPP da Rocinha, também esteve presente na manifestação por justiça e em memória de Douglas e Edilson, realizada em 27 de abril em Copacabana”. foto e texto alterado retirados da página Rede de Comunidades e Movimentos contra a Violência, no facebook.

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