Encontro, desencontro

O abraço – Egon Schiele

 

O único barulho no quarto era o som da sua respiração. Ouvia o ar entrar e sair bruscamente de sua boca, seu olhar em direção ao nada. Eu só via o teto, um tom amarelado. A tinta era nova mas parecia que a cor já havia desbotado. Fechei meus olhos, e fiquei ouvindo o som de suas inspirações e expirações, que aceleravam a cada segundo que passava. Ele caiu de costas, ao meu lado, e sua respiração se transformou em silêncio. Olhei seu rosto, estranhando a alteração. O silencio se transformou em pequenos soluços contidos, até que vi lágrimas percorrerem os picos e vales de seu rosto, que suas mãos rapidamente tamparam. Encostei a minha mão em sua cabeça, de modo a acariciar o seu cabelo, fazendo sons suaves, para tentar acalmá-lo. Acalmá-lo de algo que eu não entendia, de algo guardado e escondido, que com suas respirações intensas veio à flor da pele. Vergonha, vergonha, vergonha. “Eu não estava pronto, eu não quis te expor a isso, me perdoe”, era o que as gotas que rolavam por suas bochechas diziam. Eu tentei reafirmá-lo de algo que não sabia, dizer que a sua dor não era motivo de embaraço. Não queria ouvir seus perdões, não queria que ele sentisse a necessidade de pedir perdão. E eu senti aquela dor em mim, no meu corpo, senti meu coração apertar. E aquela sensação, nova e desconhecida a mim, provocou a saudade de algo que nunca tinha experimentado.

 

Trocamos algumas palavras constrangidas e sentamos no carro em silêncio, eu direcionei meu olhar à janela, mas não via nada. Minha mente era inundada pela imagem de suas lagrimas, de sua testa franzida pela dor que sentia, do som que emitia baixinho pelos seus lábios rosas enquanto chorava. Depois de um longo silêncio, ele saltou do carro, e trocamos algumas palavras sem sentido, nos despedindo.

 

Os nossos próximos encontros foram, minimamente, confusos. Falávamos um com o outro como se nada houvesse acontecido, como se tivesse sido um sonho que se confundiu com uma memória. Mas a cada vez que nos olhávamos, sabíamos.

 

E pode ter sido esse conhecimento mútuo, que nos fez progressivamente não saber de que maneira agir um com o outro. Nossas conversas se transformaram em acenos, nossas palavras em sorrisos distantes. E a cada vez que nos olhamos, trocamos o não entendido.

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