Vamos com calma…

Estava no Facebook, nos últimos dias, quando fui marcado por uma amiga minha dizendo para eu ler um artigo sobre o programa Esquenta, comandado pela apresentadora Regina Casé e transmitido pela Rede Globo, publicado no Blog do Mael – no dia 14 de Agosto de 2013.

De autoria de Marcos Sacramento, do site Diário do Centro do Mundo, o texto tem como título “O Esquenta” O programa mais racista da televisão brasileira. Nas suas linhas, o autor argumenta que o programa contribui para reforçar os estereótipos da população e cultura negra, além de naturalizar o lugar dessa população na sociedade brasileira. A sua crítica vem de forma bem pesada e chega a tratar o programa como “conservador e escravocrata”. Creio que o autor exagerou e acabou, em alguns momentos, reproduzindo preconceitos que podem ter raízes em hierarquias de valores ligadas às relações raciais, de gênero e de classe.

Regina Casé no comando do Esquenta
Regina Casé no comando do Esquenta

Em primeiro lugar, não é difícil identificar no texto um tom de preconceito em relação às manifestações culturais e estéticas, hoje, predominantemente da população negra como o Funk, as batalhas de passinho e os diversos estilos de montar seus cabelos e visuais. Em frases como “rimas pobres do funk, do mau gosto de penteados e cortes de cabelos extravagantes”, apenas servem para justificar as práticas preconceituosas em relação à população negra periférica e fortalecer a associação do conceito de belo com as modas e estéticas predominantes nos estratos mais privilegiados e brancos da sociedade. Esquece-se, assim, totalmente que o estilo se mostra como uma das principais tradições culturais negra na modernidade – como apontou Stuart Hall.

E ai está uma das maiores contribuições do programa Esquenta para o combate ao preconceito racial na televisão brasileira: o fato de trazer essas personagens da periferia para a televisão brasileira junto com algumas das suas práticas culturais cotidianas. Aponta para a necessidade de reconhecer esses sujeitos como cidadãos da maneira que vivem e não buscando apontar afastamentos em comparação com as maneiras de viver e os produtos culturais consumidos pela classe privilegiada. Entrar na disputa do que será valorizado ou não dentro de uma organização social implica, necessariamente, em trazer mais para a “realidade” as representações dos sujeitos marginalizados. E isso, querendo ou não, o programa acaba fazendo.

Assim, o programa que traz inúmeros artistas e personalidades quem tem como publico maior a população da periferia, como os pagodeiros Mumuzinho e Péricles e o sambista Arlindo Cruz, além de sempre ter como convidados outros expoentes do Funk e do Rap, se apresenta como um espaço onde se trava a luta de representações, momento em que se aponta o valorizado e o inferiorizado. Aqui, escolhendo a opção de valorizar a cultura desses sujeitos.

Isso não significa que o programa seja a “vanguarda” do combate ao preconceito racial e de classe. Alguns problemas podem ser observados e devem ser apontados como ações que muitas vezes contribuem para a continuação da situação precária vivida por pelos moradores das áreas periféricas.

O fato do programa não se aprofundar nos debates que propõe – como o dia em que foi discutido o projeto da UPP, e outro no qual se debateu o dia da Consciência Negra – e, em alguns momentos, escapar de situações delicadas quando se tratam de preconceitos e problemas socioeconômicos, sem dúvida merece ser criticado. Não é produtivo apenas apresentar as manifestações e práticas do dia-a-dia da população periférica, majoritariamente negra. Isso pode gerar o aprofundamento dos estereótipos de que o “lugar” do negro é naturalmente a periferia e a música ou a dança. É preciso, a todo o momento, problematizar as dificuldades e limites de ascensão social que são impostos pelas camadas dominantes a esse estrato da sociedade. Propor debates e guiá-los da forma que vem sendo guiados, realmente, não vai fazer do programa um meio muito eficaz de combate aos preconceitos da maneira que se propõe.

Sobre a crítica de Marcos Sacramento que aponta para a não apresentação de exemplos de negros que tenham outros tipos de hábitos, que não sambam mas gostam de música clássica, por exemplo, creio que não veremos isso num programa que tenha como proposta tratar das culturas majoritárias na periferia brasileira. Porém, entendo a preocupação do autor com a ideia de apresentar a população negra de forma homogênea e sem muitas diferenças dentro das possibilidades de auto-identificação, o que complica o combate da ideia do lugar natural do negro na nossa sociedade. Mas, de novo, a forma como se faz essa crítica cai na reprodução de preconceitos até machistas como “aquela menina sentada no sofá vai continuar achando o máximo desfilar com pouca roupa e pelos das pernas pintados de loiro pela comunidade”.

Enfim, entendo que uma chave para entender o programa Esquenta passa pelo reconhecimento por parte da Rede Globo da população das periferias como consumidores culturais. Num contexto em que uma parcela considerável dessa população aumentou o seu poder aquisitivo, a indústria de produtos culturais não deixaria de atentar para esse potencial. Logo, um programa que a princípio ficaria restrito a programação de verão em pouco tempo estava no ar todos os domingos, semanalmente, com ótimos índices de audiência.

E é justamente nesse interesse comercial da Rede Globo que se pode encontrar uma das barreiras encontrada para uma discussão mais profunda. Como esperar que um programa da Rede Globo, direcionado a população de classe média/média baixa das periferias, vá tratar questões tão estruturais como estas no horário nobre do domingo de maneira comprometida e combativa? Sinceramente, por mais que pessoas como Regina Casé sejam importantíssimas nos dias de hoje para a luta das representações envolvendo as manifestações culturais da população negra e de periferia, elas se encontram sob o contrato de uma multinacional que tem interesses que seriam seriamente feridos se os lugares naturais da população negra mudassem no país. É essencial não nos esquecermos disso. Mesmo assim, valem as críticas ao programa, uma vez que dentro dos limites que a Rede Globo oferece creio que seria possível um trabalho melhor com as questões raciais e de classe. Regina Casé, aqui, está na fronteira entre uma mediação pra uma possível melhora que envolve a valorização da cultura negra e popular e um “intimismo à sombra do poder”…

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