O cientista é um fingidor

por: Luísa Alves

Esses dias andei pensando no poema de Fernando Pessoa, Autopsicografia. Pra quem não conhece, é esse aqui:

 Autopsicografia

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

E os que lêem o que escreve,
Na dor lida sentem bem,
Não as duas que ele teve,
Mas só a que eles não têm.

E assim nas calhas de roda
Gira, a entreter a razão,
Esse comboio de corda
Que se chama coração.

Esse poema fala um pouco sobre a linguagem, e sobre como ela é imprecisa e reinterpretável. O que sentimos não é exatamente o mesmo que dizemos ou escrevemos. Nossas falas, textos, desenhos ou qualquer outra forma de comunicação não passam de representações, simbologias, não são o sentimento em si. O que sentimos está somente dentro de nós, e nós tentamos nos expressar através desses símbolos que chamamos de língua portuguesa. E aquilo que escrevemos, além de não ser nunca exatamente o que sentimos, pode ser interpretado de infinitas formas por quem lê. Cada um faz a sua leitura, e sente ainda algo novo, que também não está no texto ou na leitura.

O mesmo raciocínio pode ser usado para aquilo que dizemos querendo expressar não apenas sentimentos, mas verdades sobre o mundo. Aliás, pode ser usado até pra pensar a produção das ditas verdades da ciência. Eu explico: muito do que considerávamos verdadeiro alguns anos atrás, hoje dizemos cheios de certeza que estava errado. O que garante que essas verdades de hoje ainda serão verdades amanhã, se as verdades de ontem já viraram mentiras? O colesterol do ovo já foi vilão e já foi mocinho, o Sol já girou ao redor da Terra e Terra ao redor do Sol, e até plana a Terra já foi. A lista de mudanças nas verdades da ciência seria enorme, e não para de crescer todos os dias. Isso só prova que, por mais que a ciência use seu método para evitar conclusões falsas, elas continuam existindo. E voltando pra linguagem e pra transmissão das conclusões, sejam elas falsas ou verdadeiras, temos mais uma vez uma transmissão imprecisa e interpretável de diversas formas. Como se tudo isso não bastasse, ainda existem infinitos interesses políticos, econômicos, sociais, pessoais etc etc por trás de toda a ciência. Quais pesquisas recebem dinheiro, quais pesquisas são publicadas, quais pesquisas saem nas grandes mídias (televisão, jornal etc)? Não são todas e não são escolhidas ao acaso. A partir dessas reflexões, eu tomei a liberdade de fazer uma nova versão das duas primeiras estrofes do poema de Fernando Pessoa. Não sou poeta, mas sou cientista, e depois de tudo isso que escrevi aqui, acho que os dois podem ter mais semelhanças do que diferenças, então aí vai:

 Autopsicografia

O cientista é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é fato
A ideia mais recente.

E os que leem o que escreve
Nem entendem muito bem
E acreditam, então,
No que lhes convém.

O que podemos tirar disso?

1) Os cientistas não possuem verdades absolutas, só algumas ideias que por enquanto fazem sentido e, claro, tem o seu valor prático, mas não são imutáveis.

2) O que os cientistas escrevem pode ser interpretado de várias formas (não só porque eles escrevem de maneira complicada e pouco acessível, mas porque tudo pode ser interpretado de várias formas).

3) Diversos grupos usam as “descobertas científicas” de acordo com os seus interesses. Se a ciência dos cientistas já não é neutra, imagine a ciência da Rede Globo.

Por isso, vamos valorizar a ciência, mas sem nos esquecermos de que ela não é a dona da verdade. As ervas medicinais estão aí para nos mostrar que sem laboratório também dá pra descobrir a cura de muitas doenças. E a Talidomida (remédio para enjoo na gravidez que causou deformações em inúmeros bebês na década de 1950) está aí pra nos lembrar de que a ciência as vezes erra feio.

ciencia use com moderacao

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