O gigante acordou, mas ainda é egocêntrico

O Brasil, em parte, vive um momento de entusiasmo político pela defesa de direitos negados. São inúmeros: salários dignos, saneamento básico, serviços de saúde e educação pública de qualidade, defesa das terras de indígenas e espaços naturais, etc. Porém, lutas isoladas feitas, movidas e continuadas por pessoas próximas da causa e, em geral, vítimas dela.

Participei da maioria dos protestos pelos professores das últimas semanas. Vi muita gente, mas não tanto o quanto àquele 20 de junho, quando estes e muitos outros saíram de casa para protestar contra o aumento das passagens.

Na última quarta-feira conversei com uma adolescente de uns 14 ou 15 anos. Enquanto os professores que estão indo à escola discursam sobre a situação de luta por salários e condições de trabalho dignos, ela e outros colegas conversam no celular e acham que aquilo é vontade de não dar aula. Acho que essa fala retrata o pensamento de boa parte d@s alun@s de escolas públicas que estão sem aula no momento, haja visto que a luta dos professores está sendo mantida praticamente apenas por estes – quantos alunos de escolas estaduais e municipais, vestindo a camisa, junto com seus pais já foram vistos nas ruas?

Como disse, a consideração por parte do povo dada às manifestações dos professores é muito menor à que foi dada às reivindicações à causa do aumento das passagens dos transportes. As pessoas acham que não é com elas. Não falo das que estavam trabalham, mas aquelas que estavam pela rua, à toa ou voltando pra casa. Observei isso no momento em que passava pela Lapa em direção à Cinelândia e vi tantas pessoas seguindo, normalmente, atravessando a rua, esperando ônibus, comendo pipoca, enquanto milhares gritavam para que os filhos destas mesmas pessoas tenham uma educação melhor no futuro.

A educação ainda é vista apenas como um pré-requisito para garantia de emprego e não como formadora de indivíduos críticos, de pessoas pensantes. Porém, pior do que isso, vendo a reação destas pessoas na Lapa, ouvindo a fala daquela e de outros adolescentes, apáticos e indiferentes, e observando o número de pessoas presentes nas manifestações de agora, percebo como o povo, vítima como um todo, é egocêntrico, pois adere apenas às causas que lhe interessam, que lhe afetem diretamente, sabendo-se que a educação – e não somente o ensino de disciplinas – é construída  à longo prazo.

Há umas semanas atrás me falaram uma expressão chamada “greve de solidariedade”, ocorrida há décadas atrás. Quando uma classe de trabalhadores entrava em greve, outra, mesmo sem ter uma ligação profissional direta, entrava também para unir forças em prol do objetivo da classe protestante. Falta isso hoje, mas ainda é pior, pois os próprios atores da causa, estudantes e familiares, não participam. Logo, não é falta de solidariedade, mas de bom senso. Todos são vítimas e não percebem.

É possível conseguir colocar um milhão e muito mais nas ruas do Centro nas manifestações, mas para isso é necessário que pais e alunos saiam às ruas e percebam que a luta é por eles também. Senão for assim, toda a ação continuará sendo apenas mais um cisco no olho daqueles que possuem (mas não são) o poder.

E você? Está sem aula? E já foi a quantas manifestações?

Aos que tem medo, deixo a fotografia dessa senhora, para que lhes sirvam de incentivo.

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“Sou professora, tenho 60 anos, passei por uma ditadura, vivi fora do Brasil por 20 anos e já vi tudo isso que está acontecendo. De uma coisa tenho certeza, desta vez será diferente!”

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