O lixo e as classes sociais

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Já faz alguns meses que estou trabalhando em um projeto que trata de materiais recicláveis. Para uns, são lixo. Para outros, podem ser transformados em novos produtos. Todos concordam que não querem vê-lo perto de sua casa por muito tempo. Normal. Ninguém quer mesmo, independente de onde more.

Nos morros, o problema é mais grave do que no asfalto. Os ratos se proliferam com mais facilidade pela acumulação de restos orgânicos que lhes serve de alimento e atraem cobras para perto das moradias mais próximas da mata. Como a maioria mora em casas, não é incomum ouvir histórias de um animal desses ter passado por perto, subido na laje ou ter passado por debaixo da porta.

A higiene e o saneamento são questões básicas, mas, ainda assim, não são as coisas que mais me chamam a atenção. Conversando com muitas pessoas – e todas as histórias e pessoas que eu ouço talvez sejam o legado mais importante que eu vou levar desse trabalho – percebo que a forma como tratam o lixo – o seu próprio lixo – é de uma maneira distante e preocupante, porém, dizem não ser de sua competência. Todos querem se livrar, mas ninguém quer ficar com a batata quente. “Alguém tem fazer”, porém ninguém quer que seja sua mãe, seu pai, seu filho, sua irmã. Alguém, um terceiro.

O porquê de não tratarem por si mesmos o que produzem de rejeito muitos dizem ser por vergonha. “Ninguém quer ser visto carregando um saco de lixo”, dizem os familiares daqueles que separam seus materiais recicláveis. Alguns falam de uma forma interessante, mesmo sem ser questionado, afirmando não ter vergonha, mas de uma forma que se percebe uma tentativa para inibir a própria vergonha. “Parece até um lixeiro”, o que afirmam seus parentes.

Ninguém quer deixar por muito tempo em sua casa, perto dela ou em movimento conjunto, porém querem que um profissional especial seja encarregado de fazer isso – que vá até sua casa, muitos ainda dizem. Mas se há a vergonha, o que não dizer sobre os profissionais que tratam do lixo? Como se sentem? Será que se sentem bem com isso?

Há muitas perguntas para se responder sobre o tema. Porém, é possível afirmar que a desigualdade não é apenas produzida pelo sistema, mas reafirmada pelas classes sociais, mesmo aquelas que já sofrem o problema, sendo também sujeito do próprio egoísmo. Os garis, as empregadas domésticas, as auxiliares de serviços gerais e todos os profissionais que trabalham em contato com o lixo e da sujeira produzidos por todos também querem para si e para seus filhos a chance de ter um trabalho melhor e opção de poder escolher uma carreira que lhes realize.

O lixo é um produto de todos e por estes devia ser tratado, sem restrição de classes. Seja o capitalismo ou o socialismo, a sociedade ainda tem muito que amadurecer para transformar a ideia de igualdade em realidade e rever seus conceitos sobre dignidade.

* Se acha esse assunto interessante e quiser saber mais a respeito, indico a visualização desse vídeo sobre invisibilidade social em uma entrevista com o psicólogo Fernando Braga da Costa, que se disfarçou de gari para perceber a reação de colegas e professores na universidade.

http://www.youtube.com/watch?v=YfxURcfSPRw

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