Sobre opiniões e direitos

por: Luísa Alves

A Jornada Mundial da Juventude chegou. Que momento bonito de união entre as pessoas, de promoção do amor ao próximo! A Igreja até distribui, no kit do peregrino, junto com a mochila, a jaqueta e outras coisinhas, um manual de bioética. Esse manual podia só dizer como é importante respeitarmos e ajudarmos o próximo, realizarmos boas ações e coisas do tipo. Mas não. Entre outras coisas, o manual se posiciona contrariamente ao uso de métodos anticoncepcionais, ao aborto e ao casamento entre pessoas do mesmo sexo. Foram distribuídos até, olha que beleza, pequenos bonequinhos de plástico representando fetos abortados, pra “tocar” as pessoas sobre o tema. Os posicionamentos da Igreja em relação a esses temas não são nenhuma novidade, é verdade. E cada um tem direito às suas opiniões e crenças, é claro. Quero chamar a atenção, porém, para duas coisas que muitas vezes ficam esquecidas:

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  1. “Essa é a minha opinião, e daí?”

Tudo bem, a opinião é sua e você pode ter a que quiser. Você acha heterossexualidade melhor? Seja heterossexual. Você acha aborto algo terrível? Não aborte. Você é contra métodos anticoncepcionais? Não os use. Todos esses são seus direitos, ninguém está tentando tirá-los de você. Você pode até dizer por aí que é contra essas práticas, os outros podem não entender, mas são obrigador a respeitar. Mas por que as pessoas sentem tanta vontade de impor suas crenças, suas opiniões, aos outros? Se outra pessoa acha que tudo bem ter um relacionamento sexual e afetivo com alguém do mesmo sexo, por que tentar proibi-la? Se uma pessoa julga melhor salvar sua (qualidade de) vida realizando um aborto, por que tentar demonizá-la? Cada um tem seus direitos, e isso vale pra você e também pros outros. Sua opinião não vale mais que a de ninguém. A opinião do Papa também não vale mais (talvez valha pra você, mas respeite que não é assim pra todo mundo). Vi muita gente falando por aí que “se podem ser conta religião, podem ser contra homossexualidade, qual a diferença?”. Bom, a diferença é simples e clara: quem é contra religião não tenta proibir ninguém de ser religioso, não tenta proibir a construção de igrejas, nada disso. Quem é contra homossexualidade, em geral, tenta. É proposta pra proibir casamento de homossexuais, proibir adoção de filhos por homossexuais, proibir propagandas onde aparecem famílias com homossexuais, proibir, proibir, proibir. Isso fora as diversas agressões físicas e psicológicas que os homossexuais sofrem por conta dessa “opinião”. Qual foi a última vez que você ficou sabendo de alguém que foi espancado na rua ou demitido de seu emprego por ser católico no Brasil? Então, vá em frente, tenha sua opinião, viva de acordo com suas crenças, mas respeite que nem todos precisam viver de acordo com as mesmas crenças que as suas. Lembre-se: crença é que nem bunda, cada um tem a sua.

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Substituindo “gays” por “evangélicos” a discussão parece um pouco bizarra, não?
  1. Uma coisinha chamada responsabilidade social.

    A Igreja foi e ainda é uma instituição com muita influência na sociedade. Isso significa que as pessoas escutam e tentam seguir suas diretrizes. As pessoas confiam no que o seu líder religioso lhes diz. Por isso, seria sensato pensar um pouco antes de sair pregando qualquer coisa por aí. Quando a Igreja diz que é pecado usar métodos anticoncepcionais, muita gente pára de usá-los. Também não é permitido abortar. Qual o único jeito que sobra para evitar filhos (e doenças sexualmente transmissíveis)? Abstinência, a queridinha da Igreja Católica. Nos tempos em que essas leis bíblicas foram criadas, as pessoas casavam cedo, tinham filhos cedo, morriam cedo. Então tudo bem esperar pra fazer sexo só depois do casamento, as pessoas casavam lá pelos seus 15 anos, oras! Hoje em dia a realidade é bem diferente. Seria de se esperar que os líderes religiosos entendessem isso, e mudassme um pouco suas diretrizes, porque qualquer um com um pouco de bom senso é capaz de perceber que a abstinência não anda muito em alta entre os jovens, e nem poderia! Esperar até os 30 e tantos anos, quando sua carreira profissional está estabilizada o suficiente pra formar uma família, pra fazer sexo? Ou então jogar fora a chance de ter uma carreira para casar e ter filhos com 16 anos? O resultado é um monte de crianças indesejadas nascendo de outras crianças, sem qualquer estrutura para ampará-las.

    Como se não bastasse, a Igreja vem tentando legislar com discursos de ódio. Isso mesmo, LEGISLAR. Não basta que seus fiéis sigam suas pregações, eles querem que TODOS sigam, independentemente de sua religião, crença ou bunda. E aí tentam tirar os direitos dos que estão fora do “caminho de Deus”, ao invés de deixarem pro tal do juízo final. Ora, quem quiser seguir a palavra do Deus católico, evangélico, judeu, muçulmano, etc, que siga. E quem quiser seguir a sua própria consciência também tem esse direito. Lei, por outro lado, vale pra todo mundo, e por isso o laicismo do Estado é tão importante, e deve ser respeitado. A leis devem ser feitas contemplando a TODOS, não apenas alguns e nem mesmo à maioria. Todos. Todos somos cidadãos, todos temos nossos direitos, sejamos homo, hétero, transsexuais, homens, mulheres, brancos, negros, índios, altos, baixos, gordos, magros, cristãos, macumbeiros, ateus, monogâmicos, adeptos do amor livre, puritanos, nudistas… Todos. E não é direito de ninguém tirar o direito dos outros.

mortes homossexuais
http://noticias.uol.com.br/cotidiano/ultimas-noticias/2013/01/10/brasil-e-pais-com-maior-numero-de-assassinatos-de-homossexuais-uma-morte-a-cada-26-horas-diz-estudo.htm

Obs: Peço desculpas se esse texto soar como apenas um grande desabafo, mas desabafos são por vezes inevitáveis.

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