Um vício

Por Naomi Baranek

Meu nome é Naomi, tenho 19 anos e sofro de um vício. Sim, um vício, mas não daqueles que estamos acostumados a encontrar, o meu é outro, um tanto peculiar. Sou uma consumidora compulsiva de livros. Entro numa livraria e pronto, não há quem me segure. Se tivesse dinheiro, comprava a livraria inteira. Mas como meus recursos são um tanto restritos, me contento em entrar na livraria apenas para apreciar os livros: o design as capas, o cheiro das folhas novinhas, as fontes impressas no papel “off-white”. Quando posso, claro, compro 1, 2, 3 ou 10 livros. O problema é, portanto, que acabo com milhares de livros na minha estante que nunca tenho tempo de ler. Vontade é o que não falta, mas em meio à faculdade, vida social, modernidades tecnológicas e outras coisas que consomem o nosso cotidiano, os pobrezinhos acabam ficando lá, sós, esperando para que alguém desfrute de suas maravilhas. Resolvi então mudar de atitude: sempre que tenho um tempinho livre escolho um livro, abro numa página, e leio um pouco. Não ambiciono sempre ler o livro inteiro, porque simplesmente não é viável. Às vezes, se o livro me cativa muito, prossigo, mas só de ler um trecho ou outro, já descubro coisas incríveis. Hoje foi um dia desses, peguei um livro, abri no primeiro capítulo, e só de ler as primeiras páginas fiquei encantada. Resolvi, então, compartilhar com vocês hoje algumas passagens que me deram muito para refletir.

“          Não há outro modo de atingir a eternidade a não ser aprofundando-se no instante, nem outra forma de chegar à universalidade que não através da própria circunstância: o aqui e agora. Mas como? Revalorizando o pequeno lugar e o breve tempo em que vivemos, que nada têm a ver com as maravilhosas paisagens que podemos ver na televisão, mas que estão sagradamente impregnados da humanidade das pessoas que neles vivem. Dizemos cadeira, janela ou relógio, palavras que designam meros objetos, e, no entanto, de repente transmitimos algo misterioso e indefinível, algo que é como uma chave, como uma mensagem inefável de uma região profunda do nosso ser. Dizemos cadeira, mas não queremos dizer cadeira, e nos entendem. Ou pelo menos nos entendem aqueles aos quais a mensagem secretamente se destina. Assim, aquele par de tamancos, aquela vela, essa cadeira, não querem dizer nem esses tamancos, aquela vela macilenta, nem aquela cadeira de palha, e sim Van Gogh, Vincent: sua ansiedade, sua angústia, sua solidão; são antes seu auto-retrato, a descrição de suas aflições mais profundas e dolorosas. Valendo-se de objetos deste mundo aparentemente árido que está fora de nós, que talvez estivesse antes de nós e muito provavelmente nos sobreviverá. Como se esses objetos fossem trêmulas e transitórias pontes para transpor o abismo sempre aberto entre nós e o universo, símbolos daquilo profundo e recôndito que refletem; indiferentes e apagados para quem não é capaz de entender a chave, mas cálidos, tensos e cheios de intenção secreta para quem a conhece. Porque o homem faz com os objetos o mesmo que a alma realiza com o corpo, impregnando-o de seus desejos e sentimentos, manifestando-se através das rugas carnais, do brilho dos olhos, dos sorrisos e da comissura dos lábios.

            Se nos tornamos incapazes de criar um clima de beleza no pequeno mundo ao nosso redor e só atentarmos às razões do trabalho, muitas vezes desumanizado e competitivo, como poderemos resistir?

            A presença do homem se manifesta numa mesa arrumada, numa pilha de discos, num livro, num brinquedo. O contato com qualquer obra humana evoca em nós a vida do outro, deixa rastros que nos inclinam a reconhecê-lo e a encontrá-lo. Vivendo como autômatos, seremos cegos aos rastros que os homens vão deixando, como as pedrinhas que João e Maria jogavam no caminha na esperança de serem encontrados.

            O homem se expressa para chegar aos outros, para sair do cativeiro de sua solidão. Sua natureza de peregrino é tal que nada preenche seu desejo de expressão. Trate-se de um gesto inerente à vida, que nada tem a ver com a utilidade, que transcende qualquer possibilidade funcional. Os homens, à sua passagem, vão deixando seu vestígio; do mesmo modo, ao voltar para casa depois de um dia de trabalho esgotante, uma mesinha qualquer, um par de sapatos gastos, uma simples luz são comoventes símbolos de uma costa que ansiamos alcançar, como náufragos exaustos que conseguissem tocar a terra depois de um longo embate contra a tempestade.”

– SABATO, Ernesto

A resistência

O Velho Homem Triste, de Vincent Van Gogh
O Velho Homem Triste, de Vincent Van Gogh
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