Cotas raciais: por que sim?

por: Luísa Alves

O título desse texto foi copiado de uma cartilha do Instituto Brasileiro de Análises Sociais e Econômicas (Ibase), que você pode encontrar online aqui.

cotas

Decidi escrever esse texto depois de ver tantas pessoas criticando de forma vazia a política de cotas raciais. Sou sempre a favor de uma boa discussão, porque elas podem ser bem enriquecedoras… mas não se os argumentos usados forem vazios e sem embasamento, reduzidos ao “achismo”. Aqui vão algumas das críticas mais comuns que tenho ouvido por aí, e os motivos pelos quais discordo delas:

“Cotas raciais são um privilégio aos negros e é injusto com os brancos que tiveram nota melhor no vestibular e tiveram sua vaga roubada.”

Bom, vamos começar pelo começo. Os negros têm sido historicamente explorados, não só no Brasil, mas sim, aqui também. Os tempos de escravidão legalizada podem ter ficado no passado, mas é bem sabido que faltaram políticas públicas que incluíssem esses negros recém-libertos na sociedade e no mercado de trabalho. Conclusão: os negros podem não ser mais escravos, mas continuam à margem da sociedade. Nesse contexto, não faz sentido falar em “privilégios” para os negros. Privilégio quem sempre teve e continua tendo são os brancos. E se você acha que um branco que teve uma nota melhor no vestibular do que um negro conseguiu isso por puro mérito próprio, bom, você está sendo ingênuo. Um branco cresce se sentindo capaz, porque toda a sociedade lhe diz que ele é capaz, enquanto um negro cresce ouvindo que é inferior, que não vai conseguir, que o melhor que faz é largar a escola e ir trabalhar. Existem diversos estudos mostrando a importância da visão de professores, familiares, colegas e do próprio aluno no seu desempenho escolar: quando esperam mais do aluno, acreditam na sua capacidade, ele se sai melhor. E existem outros tantos estudos mostrando que a visão de professores, familiares, colegas e do próprio aluno é fortemente influenciada pela cor de sua pele: os brancos são considerados melhores a priori (ou seja, antes de qualquer prova de que sejam). Por isso digo que não, não é um privilégio para os negros. Não, não é injusto com os brancos.  As cotas raciais tentam apenas equilibrar os dois braços da balança.

“O problema não é ser negro, é ser pobre. Branco pobre também é excluído.”

É claro que ser pobre também não ajuda em nada. Mas entre negros e brancos pobres, os negros ainda levam a pior. E entre negros e brancos ricos, adivinhe.. os negros levam a pior de novo. Como exemplo disso, temos que foi aplicada uma prova de leitura para estudantes da 4a série do ensino fundamental de escolas particulares, com patamares socioeconômicos semelhantes, e que surpresa: alunos brancos obtiveram pontuações médias significativamente maiores do que os negros. Isso significa que os negros são mais burros?? Claro que não! Significa que toda aquela coisa de negros serem considerados piores e por isso se sentirem menos capazes, além de terem menos oportunidades, e por isso terem desempenhos piores faz mesmo sentido.

Além disso, dados do IBGE mostram que houve um aumento do acesso da população brasileira em geral à escola e à universidade. Que bom, né? Mas e se observarmos o aumento desse acesso para brancos e para negros separadamente? O resultado é que, ainda que o acesso tenha aumentado para ambos, o dos brancos continua maior. Em relação ao analfabetismo, em 2010 os negros finalmente quase atingiram as taxas dos brancos 20 anos antes!! Nesse momento, é claro, os brancos já estavam infinitamente menos analfabetos (veja o gráfico abaixo e confira você mesmo). O que isso significa? Não é só melhorar a educação básica em geral, não é só melhorar a escola pública… é preciso acabar com essa diferença ENORME que continua existindo entre brancos e negros (e outras etnias também, como os índios, é claro).

graf1-original

“Não adianta nada ajudar os negros a entrarem na Universidade, se eles não vão conseguir se formar porque sua educação básica foi ruim.”

Olha aqui uma surpresa agradável: na UERJ, entre 2003 e 2006, os estudantes cotistas tiveram médias superiores às gerais (que incluem os não-cotistas). Isso significa que esses estudantes têm, sim, plena capacidade de frequentar a Universidade, se formar e se tornar ótimos profissionais. O que lhes falta é oportunidade, não capacidade.

 Vou terminar esse texto por aqui, dizendo que as cotas não são A solução pra todos os nossos problemas raciais. Elas são um bom começo, uma medida urgente e necessária, mas que deve ser complementada com tantas outras. Algum dia, se as coisas forem bem feitas, não precisaremos mais de cotas, porque negros, pardos, índios, brancos, mulheres, homens, heterossexuais, homossexuais… todos os cidadãos, enfim, terão verdadeiramente igualdade de direitos e oportunidades, respeitando suas diferenças.

Por fim, recomendo um exercício bem legal que vi aqui, chama-se “Teste do pescoço”. Faça-o e descubra por si mesmo se existe igualdade racial no Brasil.

Dica: nas nossas universidades públicas, o número de professores negros não chega a 1%.

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4 comentários sobre “Cotas raciais: por que sim?

  1. O dia que alguém me provar que os negros tem menos oportunidade de estudo (público) no Brasil poderei pensar em rasgar a Constituição e aceitar cotas raciais, por mais que não consiga conceber um critério, que seja juridicamente aceito, para estabelecer a “raça” de alguém.

  2. para mim é um absurdo julgar alguem pela cor da pele, porem tenho certeza de que os negros são racistas, se os negros querem respeito e eu acho que merecem respeito como qualquer ser humano, vou fazer a seguinte pergunta: Porque recebem tão bem a humilhante lei de cotas, porque fazem o movimento da consciencia negra?a lei de cotas é uma afronta a dignidade, isso é tão real como a agua procura seu proprio nivel em toda parte deste planeta.
    É ABSURDO UM HUMANO JULGAR O OUTRO SIMPLESMENTE BASEADO NUM PENSAMENTO PRE-CONCEBIDO,SER POBRE NÃO É DESCULPA PARA NÃO CONSEGUIR NOTAS BOAS.MACHADO DE ASSIS APRENDEU MAIS DO QUE QUEM ESTAVA DENTRO DA SALA DE AULA.

  3. Esse povo que comentou aqui… por acaso LEU sobre as pesquisas? Gente… Olha… Tá difícil viver. “Ser negro não é desculpa, ser pobre não é desculpa”. Quantos perrengues e preconceitos e humilhações financeiras e por cor de pele essa pessoa passou na vida? Quantos problemas de autoestima essa pessoa desenvolveu devido à sua cor de pele ou má condição financeira? Bad toughts, meu caro. Por favor.
    A sociedade precisa de mais EMPATIA.

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