Ventos de esperança

Semana retrasada cheguei a uma conclusão inocente e desesperada: queria morar fora. Não, Não. Não porque quero conhecer outros locais por simples diversão.  Não quero tirar férias para voltar a trabalhar exaustivamente esperando o final de semana. Queria outra vida. Não, queria viver e não apenas sobreviver. Quero poder viver dignamente, sem luxo, com apenas o necessário e o confortável. Até aquela semana, eu não sabia se investiria mais ou não na carreira como educador, pois, estando ou não no mercado, ainda com a experiência da participação na mudança de vida de alunos, a questão da sobrevivência pesa sabendo-se que não deve sustentar apenas a si mesmo. Ainda que existam professores bem pagos, são a minoria pertencente a grandes redes de ensino e preparação para o vestibular, que não fazem parte da minha escola ideal de trabalho. Eu quero sim ser professor da rede pública e poder chegar em casa sem ter que me preocupar com o meu emprego pela falta de infraestrutura, pelo baixo salário e pela falta de respeito.

Aos poucos, aquele sentimento de poder mudar o mundo e trabalhar no que se quer, independente do valor que é dado na nossa sociedade, foi dando espaço a uma visão cética, porém não tão incoerente; apenas focada na realidade. Eu que falei a todos que diziam que isso era “coisa de jovem sonhador universitário”, que não mudaria minha visão, me encontrei pensando em sair desse lugar. Pela minha felicidade, mas, principalmente, pela minha família. Temo a saúde e me sinto aliviado a cada dia por não ter nenhum mal, pois falta a medicina de verdade, com médicos que perguntam ao paciente sobre a sua vida, especialistas que não se vendam à indústria farmacêutica. Faltam médicos, falta também valorizá-los. Se há ausência de hospitais, também faltam medidas de prevenção e condições básicas de higiene, saneamento e bem-estar, porque estar infeliz também prejudica o sistema imunológico.

Já ouvimos tanto esse papo que é quase clichê. Nos adaptamos, “damos um jeito”. Isso nunca entrou na minha cabeça. Minha vontade era de que as pessoas trabalhassem no que quisessem, o quanto quisessem e fizessem de tudo mais o que sonhassem. Para isso, elas teriam que ter condições confortáveis (e não mínimas) para se sustentar. Na terra onde trabalhar pouco é culturalmente interpretado como sinônimo de preguiça, não acreditei mais em mudanças – não que eu pudesse viver para ver.

Daí, então, ocorre um movimento. Começa pequeno e vai crescendo em proporções geométricas, alcançando um 5º ato com mais de 100.000 pessoas no município do Rio de Janeiro. É como se fosse o início da conquista daquele sonho. De repente, sinto uma felicidade diferente de qualquer outra, pois carrega a esperança da mudança ideal.

Tá começando ainda. Há consequências, mas já existem vitórias. Há também quem nos apoie lá de fora; não estamos sozinhos. Não somos mais o país do futebol, somos um povo crítico que anseia pelos seus direitos. Somos, antes de qualquer espírito patriota, seres humanos em que buscam uma vida digna.

Essa semana eu voltei a acreditar que eu posso mudar o mundo, que eu posso ser feliz aqui e eu vi muita gente junta com o mesmo sonho. Você e todo mundo pode vir fazer o movimento. Talvez demore um pouco, talvez demore muito, mas começou! Está acontecendo! E então, quando a ideia deixar de ser apenas esperança, estaremos mais próximos do que se chama democracia.

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6º ato de manifestação popular, em 20/06/2013 – Centro do Rio de Janeiro, 1 milhão de pessoas reunidas. E não era pelo futebol, nem pelo carnaval, mas por dignidade. Por mudanças. Não parece um sonho?

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