Enquanto isso em Istanbul…

Por Naomi Baranek

 
Hoje venho expor a vocês um post de um blog que achei por acaso no Facebook, que me tocou profundamente. Ele diz respeito ao que está ocorrendo em Istanbul, na Turquia, nessa última semana. Fiquei arrepiada do início ao fim. E não foi só pelo meu choque a tamanho desrespeito aos direitos humanos numa sociedade que se diz democrática, mas também pelas similaridades com a atuação do governo e da polícia brasileira. O post estava em inglês, então me dei a liberdade de traduzí-lo, pois acho que todos devem lê-lo, e coloquei o link do post original abaixo. Espero que a sua leitura seja tão tocante e frutífera quanto foi a minha.
 
istanbul

01/06/2013 tarihinde yayımlandı

Aos meus amigos que moram fora da Turquia:

Estou escrevendo para informá-los do que vem ocorrendo em Istanbul nos últimos cinco dias. Preciso escrever isso pessoalmente porque neste momento grande parte da mídia tem sido bloqueada pelo governo e só nos resta o ‘boca-a-boca’ e a internet para expor nossa situação e pedir auxílio e apoio.

Na última semana de maio de 2013, um grupo de pessoas (a maioria das quais não pertencem a nenhum partido ou ideologia) se reuniram no Parque Gezi em Istanbul.  Entre eles, havia muitos de meus amigos e alunos de yoga. O motivo era simples: para impedir e protestar a imanente demolição do parque para que mais um shopping possa ser construido no centro da cidade. Há uma quantidade numerosa de shoppings em Istanbul, pelo menos um em cada bairro! As árvores estavam para serem removidas na manhã de quinta feira. Pessoas se encaminharam ao parque com cobertores, livros e crianças. Lá elas colocaram suas barracas e passaram a noite em baixo das árvores. De manhã cedo, quando as escavadeiras começaram a remover as árvores de centenas de anos do chão, todos se levantaram em protesto à operação.

Não fizeram nada além de ficarem parados em frente às máquinas.

Nenhum jornal ou canal de televisão esteve lá para transmitir o protesto. Foi um “blackout” midiático completo.

Mas a polícia chegou com caminhões de jatos d’água pressurizados e spray de pimenta. Eles obrigaram as pessoas a sairem do parque.

Na tarde do dia 31 de maio o número de protestos se multiplicou. Mas também se multiplicaram o número de forças policiais  em torno do parque. Nesse meio tempo, o governo de Istanbul interditou todas as vias que levam até a praça Taksim onde o Parque Gezi está localizado. O metrô foi fechado, as barcas canceladas, as ruas interditadas.

Ainda assim, cada vez mais pessoas se direcionaram ao centro da cidade a pé.

Vieram de toda Istanbul. Vieram de diversos contextos, ideologias e religiões. Eles todos se juntaram para impedir a demolição de algo que ultrapassava o parque:

O direito de viver como cidadãos honoráveis desse país.

Eles se aglomeraram e continuaram a sentar no parque. Os policiais botaram fogo nas barracas dos manifestantes e atacaram-nos com água pressurizada, spray de pimenta e gás lacrimogênio durante um motim noturno. Dois jovens foram atropelados por automóveis e mortos. Uma outra jovem, amiga minha, foi abatida na cabeça por uma das bombas de gás lacrimogênio. A polícia estava disparando elas no meio da multidão. Depois de uma cirurgia que durou três horas, ela ainda está na UTI em condições críticas. Enquanto escrevo isso, não sei se ela vai sobreviver. Esse blog é dedicado a ela.

Essas pessoas são meus amigos. São meus alunos, meus parentes. Eles não têm nenhum motivo oculto, como o Estado implica. Os seus motivos estão aí fora. Está muito claro. O país inteiro está sendo vendido a corporações pelo governo, para a construção de shoppings, condomínios de luxo, auto-estradas, barragens e plantas nucleares. O governo procura (e até cria, quando necessário) um motivo para atacar a Síria contra a vontade do povo turco.

Em cima disso tudo, o controle governamental sobre a vida pessoal da população se tornou insuportável. O Estado, sob sua agenda conservadora, aprovou diversas leis e normas referentes ao aborto, a cesariana, a venda e o uso do alcool e até a cor de batom usada pelas atendentes de bordo.

As pessoas que marcham ao centro de Istanbul demandam o direito de viver livremente,  de justiça, de proteção e respeito por parte do Estado. Elas demandam serem envolvidas no processo de tomada de decisões que concernem a cidade que habitam.

O que elas receberam em troca foi o uso da força excessiva e quantidades enormes de gás lacrimogênio atirados direto em suas faces. Três pessoas perderam seus olhos.

Ainda assim, eles marcham. Centenas e milhares de cidadãos de toda parte da vida se juntaram em suporte aos manifestantes. Mais alguns milhares atravessaram a Ponte Bosporus a pé em apoio às pessoas de Taksim. Vieram a seu encontro mais canhões d’água e mais spray de pimenta, mais hostilidade. Quatro pessoas morreram, milhares foram feridas.

A mídia não estava lá para transmitir os acontecimentos. Ela estava ocupada com as notícias sobre a Miss Turquia e “o gato mais estranho do mundo”.

A polícia continuou a caçar e jogar spray de pimenta nelas até o ponto onde cachorros e gatos morreram intoxicados.

Escolas, hospitais e até hoteis 5 estrelas em torno da Praça Taksim abriram suas portas para os feridos. Médicos encheram as salas de aula e quartos de hoteis para efetuarem primeiros socorros. Alguns policiais se recusaram a jogar spray e gás lacrimogênio em pessoas inocentes e se demitiram. Em volta da praça, colocaram ‘jammers’ (neutralizadores) para impedir a conexão à internet e serviços 3G foram bloqueados. Moradores e comércios ao redor forneceram WiFi grátis para as pessoas nas ruas. Restaurantes ofereceram comida e bebida grátis.

Pessoas em Ankara e Izmir foram às ruas em apoio à resistência em Istanbul. Manifestações se espalharam a outras cidades, onde os cidadãos também encararam brutalidade e hostilidade policial. Centenas de milhares continuaram a se juntar.

A mídia de massa continuou a transmitir a Miss Turquia e “o gato mais estranho do mundo”.

***

Escrevo essa carta para que você saiba o que ocorre em Istanbul. A mídia de massa não te dirá nada disso. Não em meu país, pelo menos. Porfavor coloque a maior quantidade de artigos que você encontrar na internet para informar o mund

Eu sou apartidário. Não acredito em política. Eu não defendo nenhuma ideologia ou regime. Como muitos outros na Turquia, eu estou cansado(a) e frustrado(a) com  a polarização entre Kemalistas seculares e os Islamistas. Eu não pertenço a nenhum dos dois. Acredito no afastamento dessa polarização, em direção a uma nova forma de relação. Eu conheço muitas pessoas que estão nas ruas de Istanbul que compartilham a minha forma de pensar e eu sei que não somos os únicos. Só queremos viver nossas vidas com dignidade humana.

Enquanto postava artigos explicando a situação em Istanbul no meu Facebook ontem a noite, alguém me fez a seguinte pergunta: “O que você espera ganhar ao reclamar sobre o seu país para estrangeiros?”.

Esse blog é minha resposta a ela.

Com a minha suposta “reclamação” sobre meu país, pretendo conquistar:

Direito à liberdade de expressão

Respeito aos direitos humanos

Controle sobre as decisões que tomo quanto ao meu corpo

Direito de  legalmente congregar em qualquer parte da cidade sem ser considerado terrorista.

Mas principalmente, ao espalhar a noticia a vocês, amigos de outras partes do mundo, espero obter sua consciência, apoio e ajuda!

Retirado de: http://defnesumanblogs.com/2013/06/01/what-is-happenning-in-istanbul/

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