A política do “arruma a casa que vai chegar visita”

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Uma das coisas que mais me irritam ao assistir a TV – que por essas e outras causas, hoje em dia eu mal assisto – é quando reportam construções e reformas governamentais com a justificativa de “preparar a cidade para receber a Copa e as Olimpíadas”. Pior ainda, é quando vejo pessoas alegres concordando com as reformas e, consequentemente, assumindo ou não, aprovam o motivo dado.  Semana passada, li uma notícia sobre a comunidade de Varginha, no Complexo de Manguinhos, que receberá o papa na semana da Jornada Mundial da Juventude.

 

“Mesmo quem não é católico reconhece a importância da visita do Papa Francisco à comunidade. Evangélico da igreja Assembleia de Deus, o vice-presidente da associação de moradores local, Walter Silva, o Zelito, de 41 anos, afirma que a vinda de Sua Santidade acelerou a execução de obras que eram antigas demandas da população.

— As ruas estão recebendo asfalto, estão providenciando ligações de esgoto e iluminação pública. Sou evangélico, mas sei a importância da visita do Papa. Acredito que Varginha vai viver três momentos: o antes, o durante e o depois.”
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/apos-anuncio-da-ida-do-papa-rotina-de-varginha-se-transforma-8433427

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O jornal dizia que a população parece estar feliz, pois a chegada do papa trouxe mudanças a estrutura da região. Agora, eu me pergunto, só um grande evento com personalidades famosas justifica as mudanças das condições de vida para um meio digno? E devemos, ainda, agradecer por isso?

Tudo, menos por nós. Digo, essa permanece como uma última razão para outros exemplos de projetos milionários dos últimos três anos, o chamado “legado”. O problema é que enquanto toda a mudança é focada apenas no aspecto estético e os resultados esperados são previstos para pós-2014, a população agora sofre por não ter meios básicos de garantia do próprio bem-estar.

A cada dia que passa não só a vida, mas a sobrevivência fica cada vez mais cara. O preço do produto considerado caro hoje tem o valor da promoção do mês que vem em uma mudança tão rápida que só a inflação parece ser uma desculpa ultrapassada. Hospitais perdem médicos de forma tão frequente quanto a evasão de professores das escolas públicas. Escolas estaduais são fechadas e os alunos não sabem para onde vão, temendo serem remanejados para locais de facções rivais das comunidades onde vivem – um medo real muito pouco divulgado, de todo o corpo de qualquer instituição escolar do estado (diretores, coordenadores, funcionários, alunos e familiares), visível a qualquer um no meio, menos ao Estado, fora a distância da própria casa e, ainda pior, a separação aleatória de crianças, arruinando histórias construídas na escola.

Para ficar mais informado sobre o que acontece em espaços pontuais de populações específicas da cidade do Rio de Janeiro, busco sempre participar de fóruns e grupos em redes sociais, e ir a discussões em reuniões e manifestações de grupos sociais, porque o telejornalismo e o jornalismo impresso deixam sempre a desejar. Às vezes, o discurso de imparcialidade e a divisão em blocos das informações são incoerentes, quando a necessidade da população espectadora possui prioridades. Eu não quero saber de futebol enquanto a cidade pega fogo.

 

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 Você lembra o drama da Escola Friedenreich ano passado? Ao menos soube sobre ela? A luta continua.

http://meurio.org.br/na_atividade/8/assine_embaixo/escola-nao-se-destroi

http://oglobo.globo.com/rio/alunos-professores-da-escola-friedenreich-participarao-de-manifestacao-contra-demolicao-8059946

 

São tantos e tantos absurdos que cada um deles merece uma coletânea exclusiva de textos – e muito mais do que isso, ações práticas – para abordá-los, porém o meu foco hoje não são os problemas, mas a reação a eles. A justificativa às reformas e a conformação popular frente a eles são o meu alvo. Você pode até dizer que, bem ou mal, tais obras ficarão conosco e serão usadas por nós. Deixando de lado o fato de obras serem superfaturadas, privatizadas e (re)feitas em curto espaço de tempo por uma padronização imposta por um comitê internacional (ou não, mas só pra inglês ver), vamos fazer uma breve analogia: imagine a cidade como a sua casa. Para garantir o bem-estar da família é preciso ter dinheiro. Ganha-se dinheiro trabalhando e para se ter o bem-estar no trabalho deve-se ter um salário digno, ter sua profissão reconhecida, bem como ser respeitado pelos colegas, chefes e, inclusive, a constituição. Para ter energia e sustentar a sua família, você deve ter dinheiro para comprar a comida e zelar pela sua saúde sem muito esforço, até porque você deve ter condições mínimas para isso, sem perder sua dignidade. Para ir até o mercado, o trabalho ou a escola você precisa de um transporte de qualidade, podendo deixar sua família livre para exercer suas atividades diárias em segurança, que vocês também merecem. Fora ao trabalho, para também sobreviver, você deve adquirir conhecimentos e, por isso, precisa ter condições mínimas para frequentar a escola. Esta pode ser um espaço de diversão se assim for construída a cada dia, assim como o trabalho, mas vamos chamar de “lazer” o conjunto de condições para exercer atividades de bem-estar além da sobrevivência. Se um dos pilares essenciais (educação, saúde, segurança, etc) em sua casa está debilitado, eu tenho certeza que você deixa o lazer de lado. Se sua mãe está doente, você não vai deixar de comprar os remédios porque está guardando dinheiro para uma viagem daqui há dois anos.

Pois é, existem prioridades na vida e não é muito difícil identificá-las se você tem um pouco de sensibilidade. E aí, então, nos encontramos sob um governo às avessas que fala de um legado tão distante, quando uma população enorme sofre por falta de saneamento básico, de infraestrutura em escolas e hospitais, altas tarifas de transporte, baixos salários de quaisquer prestadores de serviços, principalmente os que não sejam ligados ao comércio, e tantos outros absurdos. Você pode até não sofrer as consequências à curto prazo por estar na zona de conforto – tem um plano de saúde (que já faz uns anos que não é garantia de atendimento de qualidade na hora em que se precisa), uma casa própria, um carro, etc –, mas certo momento a balança cai para o seu lado. Você também não precisa ser egoísta e pensar do modo “um dia chega a você”, mas ter o mínimo de consciência em pensar que “somos todos uma só humanidade e a falta para um, também me atinge”.

É por esses motivos que tive repulsa a reforma do Maracanã e achei um absurdo o voluntariado que surgiu para trabalhar por ele – tantos projetos para se voluntariar e vão logo buscar aquele do qual não falta verba para contratar trabalhadores. Não aguento mais ouvir sobre a Copa, as Olimpíadas e nem mesmo o recém-aberto Museu de Arte me interessou, porque sei que não é feito para nós – e isso é deixado bem claro nos jornais –, mas “aumentará o turismo na cidade”. O dinheiro desta cidade, que já foi a capital, é suficiente para suprir as necessidades daqueles que nela vivem e que deveriam ser a única razão da governança. Ela já é cara o suficiente e tudo o que eu quero é viver nela sem chamar a atenção.

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