A Cultura e os Outros


por: Luísa Alves

No meu último post, comecei a falar sobre as nossas regras sociais e sobre os nossos preconceitos contra tudo que foge a elas. Já falei um pouco sobre a Falácia Naturalista, que você pode conferir aqui.  Como prometido, hoje vou falar sobre a cultura e sobre como ela cria preconceitos tão sem sentido quanto aqueles baseados na Falácia Naturalista.

Nós nascemos, crescemos e nos desenvolvemos em meio às influências do ambiente a nossa volta – nossas famílias, escolas, amigos, televisões… E essas influências nos moldam. Aquilo que vemos e ouvimos se torna comum, e muitas vezes reproduzimos valores sem maiores reflexões. É comum repararmos que sofremos influência de quais roupas estão na moda, por exemplo. Menos comum, porém, é repararmos que o simples fato de usarmos roupas vem de influências externas, o fato de pensarmos que mostrar nossos corpos nus em público é algo de que devemos nos envergonhar – chegando a ser crime em muitos países.

peitos
Nova lei em Nova York: mulheres podem sair sem blusa! Para ler mais, acesse: http://www.policymic.com/articles/42359/topless-women-in-public-not-breaking-the-law-says-nypd , ou em português: http://ultimosegundo.ig.com.br/mundo/nyt/2013-05-19/policia-de-nova-york-recebe-ordens-para-nao-prender-mulheres-de-topless.html

Achamos natural nos vestirmos pra sair de casa, assim como muitas vezes achamos natural que as mulheres cuidem dos filhos, que homens gostem de mulheres, que homens sejam “masculinos” e mulheres “femininas”, e por aí vai. Bom, não é natural – é construído por nós, seres humanos. E digo mais: é construído de forma diferente em lugares e épocas diferentes, é cultural. Na nossa cultura dominante atual (nós, Brasil, 2013) temos generalizado que a sociedade é um patriarcado (homens dominando, tipicamente machista) heteronormativo (qualquer outra orientação sexual é desvalorizada, para não dizer repudiada) monogâmico. Mas de onde veio isso? Será que foi sempre assim? Será que é assim em todos os lugares? Bom, vamos dar uma olhada pelo mundo afora pra descobrir:

Celtas

As mulheres celtas (lá pelos tempos antes de Cristo) eram vistas em pé de igualdade aos homens em muitos aspectos, participando do exército, tendo direito à escolha do marido e ao divórcio. Em um casamento, se tornava chefe da família o cônjuge que possuísse uma fortuna maior, independente de ser o homem ou a mulher.

celta
Imagem celta exaltando a mulher

Minangkabau, Indonésia

Os Minangkabau são um grupo étnico atual, habitante da Sumatra, na Indonésia, e considerado por alguns estudiosos como um matriarcado atual. Ele segue a matrilinearidade, ou seja, a transmissão da propriedade é feita através da linhagem feminina. Nos casamentos, o homem se muda para a casa da mulher, sendo ele o “adquirido”. No entanto, muitos não consideram esse grupo como matriarcal porque homens e mulheres tomam as decisões juntos, já que o grupo é adepto de decisões por consenso.

O que essas pessoas achariam da nossa sociedade machista, hein?

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Casamento Minangkabau

Grécia Antiga

Na Grécia, o relacionamento entre dois homens era não só aceito, como esperado.

Em Atenas, e esse costume se espalhou pela Grécia, os jovens deveriam ser cortejados e “apadrinhados” por um homem mais velho, um mentor, que lhe passaria conhecimentos, lhe iniciaria na arte, filosofia etc, e que teria relações sexuais sem penetração com ele, como masturbação ou sexo inter coxal. No entanto, essa prática possuía regras para que fosse aceita: tinha que ser pederasta (ou seja, um homem mais velho e um jovem); o jovem deveria ser passivo e não ter qualquer desejo na relação, seu interesse deveria ser apenas intelectual, e ele deveria apenas agradar sexualmente seu mentor; e nada de penetração, pois era uma sociedade machista, e ser penetrado era muito feminino e, portanto, socialmente inferior.

Já em Esparta, relações entre homens adultos eram incentivadas para fortalecer o exército – casais gays formavam exércitos mais coesos e preocupados com a segurança uns dos outros. Havia, inclusive, em uma de suas colônias, um exército composto exclusivamente por casais homossexuais – tropa de elite conhecida por sua ferocidade e bravura, quase imbatível em campo de batalha.

E agora, quem duvida da masculinidade desses homossexuais?

gregos
Pintura grega mostrando relação pederasta

 Tibet

Em algumas comunidade do Tibet é costumeiro irmãos se casarem com a mesma mulher (o mais velho escolhe, os mais novos acompanham), pois isso evitaria a divisão dos bens da família e das terras. Todos moram juntos e criam os filhos juntos, sem sequer saberem quem é o pai biológico de cada criança. O casamento monogâmico é visto por eles como individualismo e egoísmo de sociedades como a nossa.

poliandria
Mulher com seus maridos, em comunidade do Tibet

 E então? O mundo por aí é mesmo sempre como o nosso?

Os valores são diferentes em cada local e época, são fluidos. O que aqui e agora é visto como comum, “normal”, pode ser considerado extremamente estranho amanhã ou em algum outro lugar. Guardadas as devidas proporções, o comportamento geral humano pode ser comparado às roupas que usamos: se alguém usasse um biquíni no Rio de Janeiro dos anos 1920, como seria visto? Ou ainda usá-lo hoje em dia, em um país muçulmano? E uma mulher de burca andando por nossas ruas cariocas, será que passamos por ela com naturalidade? E uma mulher usando calças na época colonial? E um homem usando vestido hoje em dia? Será que é tudo mesmo tão estranho, ou será que o nosso olhar é que é estranho a tudo?

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Homem escocês de kilt e homens vestidos com roupas consideradas de mulher… qual a diferença além da cultura?? Por que o primeiro é aceito e os outros são agredidos nas ruas??

Cada vez mais pessoas tomam consciência dessas questões, cada vez mais pessoas tentam quebrar paradigmas, exercer suas liberdade, mas a resistência ainda é grande. E quando tratamos uma mulher como inferior ou um gay como aberração, só porque é com isso que estamos acostumados, quem é que sai ganhando? Não nos tornamos melhores ou mais felizes só porque tornamos alguém pior ou menos feliz. Por que temos tanto medo do diferente? Ao invés de seguirmos cegamente preconceitos que nos foram impostos desde o berço, deveríamos parar e pensar: temos tanto medo de que?

 Você sabia?

Foi realizada em agosto de 2012 o que talvez seja a primeira união estável entre 3 pessoas no Brasil. Ainda que não seja de fato casamento, esse procedimento jurídico garante uma unidade familiar e direito a divisão de bens no caso da morte de algum dos participantes. Esse acontecimento faz parte do que é chamado de poliamor: união afetiva entre mais de 2 pessoas. Pode ser envolvendo mais de um homem, mais de uma mulher ou ambos.

A união estável entre pessoas do mesmo sexo também é, agora, permitida por lei no Brasil. Em ambos os casos, a resistência de alguns setores da sociedade tem sido grande… e você, o que acha disso? E você, por que acha isso?

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Um comentário sobre “A Cultura e os Outros

  1. Esqueceu de falar que mesmo em Esparta, que tem essa fama de ser toda máscula, as mulheres eram muito melhor tratadas que em outros lugares na época (em Atenas, por exemplo, com todos os seus pensadores…) Ainda que não chegasse a um pé de igualdade total, elas possuíam uma grande independência e influência na comunidade. Podiam até se divorciar e ficar com os filhos e seu próprio dinheiro tranquilamente. Taí pra mostrar que pro cara ser machinho não precisa oprimir mulher nenhuma 😉

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