Dos ônibus nossos de cada dia

Os textos que seguem foram pensados de dentro dos ônibus, coiscidentemente de mesma linha, em dias diferentes, no ano passado. Eles representam medos e angústias cotidianas que sinto e que imagino que muitas pessoas devem sentir.

Antropofágicos adictos

Eles fazem parte das impurezas da sociedade. São daqueles que, como psicopatas e masoquistas, não merecem nosso respeito. Além disso, eles são também psicopatas – de almas – e masoquistas; violam do corpo de outra pessoa em prol de seu desprezível prazer. Observam as mulheres com olhares atentos e aterrorizantes, as devoram como canibais apenas com o olhar. Eles estragam os olhos azuis, transformando-os em olhos vermelhos de fogo e negros de terror. Eles chegam para o lado no ônibus, esperando que alguma jovem ingênua e bonitinha ocupe o banco ao lado. Aliás, esperando que qualquer presa, não importa a idade ou o tamanho, ocupe o tal banco livre. Eles viram para perguntar a hora enquanto olham para as coxas das mulheres. Bela justificativa para quem quer aproveitar a imaginária deglutição antropofágica. Por dentro de seus corpos, o coração deve latejar de desejo e os pensamentos imundos devem percorrer pelas cabeças, sem pena. Causam tanto pavor quanto um bandido armado. A diferença é que a arma deles é outra.

Escrito depois de saltar do 435, sentido Ipanema-Leblon, após um homem me perguntar as horas.

A fome

Enquanto uma das mãos segurava o biscoito, – preto como suas unhas – a outra, aflita, procurava no lixo o desperdício dos outros; dos que pagaram pela comida e abandonaram as “sobras”. Não teve sucesso. Já na lata seguinte, encontrou algo que pudesse saciar parte da fome que diariamente sente. E lá está ele, andando pela Ataulfo de Paiva com suas roupas sujas e rasgadas e seu chinelo arrastando pelo chão, uma das mãos segurando um frapuccino do Starbucks. Irônica essa fome estrangeirizada. Enquanto isso, eu lembrava que também sentia fome, mas que quando saltasse do ônibus ela se resolveria com o pão de batata que me despertava desejo. E ele, tem fome de que? De um biscoito, restos de Starbucks, fome de “lixo”. A lágrima salgada atiçou meu paladar.

Escrito depois de saltar do 435, sentido Gávea-Ipanema.

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