É hora da reforma (sempre adiada) do currículo do Ensino Médio

Por Fábio Gonçalves

Prof de Geometria do Pecep

 

  O nosso ensino médio (EM) é um bicho muito esquisito: o que se ensina já não é o fundamental – os primeiros nove anos – não permite a entrada no mundo do trabalho – isto é para os cursos técnicos – e nem ajuda a compreender o mundo – a fragmentação do conhecimento em cada vez mais matérias atrapalha um bocado. Daí que no EM o conhecimento é legitimado por seu valor de troca: por aprovação na série, por diploma ou pelo acesso à universidade.

Convenhamos, isto é muito pouco para quem não pretende cursar uma universidade: aturar três anos de non-sense para receber um canudo vazio é dose. Mas você sabia que já há mais de 15 anos o governo federal vem tentando transformar esta realidade? E a alternativa proposta para o EM faz muito mais sentido do que a colcha de retalhos que temos hoje?

A ideia é que o conhecimento deve ter valor de uso na vida, sendo traduzido em competências e habilidades práticas, e não mais conteúdos estanques, do tipo trigonometria, cálculo estequiométrico ou análise sintática. Esta é possivelmente a meta mais ambiciosa dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), publicados em sua primeira versão em 1997! Sua implementação daria um novo sentido ao próprio Ensino Médio, hoje na prática apenas um longo e custoso preparatório para aqueles que pretendem seguir seus estudos.

Os PCN propõem educar para a vida, privilegiando raciocínio lógico e problemas contextualizados no cotidiano, em vez de adestramento e memorização. Enfatizando a integração das ciências com interdisciplinaridade, a proposta é que, por exemplo,  na matemática seja enfatizado seu caráter de construção histórica e social e também de ser a linguagem das ciências. As ciências aliás, estão sempre em relação umas com as outras, formando dois grandes grupos: as naturais e humanas.

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Apesar de todas estas boas ideias, é difícil encontrar alguma escola,  particular ou pública, que tenha reformado seu currículo para atender a proposta dos PCN. As razões para isso são várias: professores sem treinamento, que dão aulas em várias escolas, pouco tempo para coordenar as atividades em conjunto, conservadorismo, a conhecida preguiça mental, o fato de não servir para o vestibular… Epa! Espere aí! Reparou como o que foi descrito tem a ver com o Enem? Não é por acaso: o Enem é uma prova para avaliar o ensino médio, que idealmente deveria ser como nos PCN.

Ironicamente cabe justamente ao Enem, ao se tornar a principal forma de acesso ao ensino superior, ser também o instrumento da reforma do currículo do ensino médio. Justamente uma reforma que pretende dar sentido prático ao EM, afastando-o deste caráter de preparatório para a Universidade. É uma ideia inteligente, mas será que vai dar certo? Isto é assunto para uma conversa futura, mas pelo menos agora estamos em movimento. Quer dizer, nas escolas públicas do Rio infelizmente acho que ainda não, mas aqui no Pecep já estamos trabalhando com esta nova realidade.

PS: Os PCN podem ser lidos aqui

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