A falácia naturalista e outras mentiras

por Luísa Alves

O ser humano tem mania de criar regras, e chama isso de “ser civilizado”. Quem quebra essas regras pode sofrer todo tipo de punição: advertências, multas, prisão, se essas regras forem leis (regras formais, explícitas) – e se não forem (regras informais, implícitas), a punição é talvez ainda pior: o preconceito, a exclusão, a violência. É nesse segundo tipo de “regra” que quero focar: “certos trabalhos são coisa de mulher enquanto outros são de homem”, “sexo só deve ser feito para reprodução”, “homossexualidade e transexualidade são aberrações”, e por aí vai.

Para criar essas regras, podem ser usados vááários critérios, ou às vezes critério nenhum. Na tentativa de convencerem a si mesmas e às outras de que essas regras fazem sentido, de que elas têm um motivo e de que são mesmo boas regras, as pessoas frequentemente usam a justificativa de que essas regras “são assim na natureza” – é o que chamamos de “falácia naturalista”. Pobre Biologia, acaba recebendo injustamente a culpa por muitas regras absurdas. Esse post vai ser o primeiro de uma série que pretendo escrever sobre essas “regras” que seguimos. Vou começar tentando tirar a culpa da pobre da biologia, que nada tem a ver com a história. Basear nossos preconceitos na natureza não faz sentido basicamente por dois motivos:

  1. Essas regras nem sempre são realmente assim na natureza

  2. Será que tudo que existe na natureza é mesmo bom e desejável para nossas vidas?

Sobre como essas regras não são realmente assim na natureza dá pra fazer posts o ano inteiro: as hienas fêmeas têm algo como um pênis; os cavalos-marinhos machos “engravidam”; os bonobos fazem sexo anal, oral e se masturbam; os peixes-palhaços mudam de sexo ao longo da vida; e de comportamentos homossexuais existem tantos exemplos que é até difícil escolher um, mas podem ser os pinguins ou as ovelhas, que formam casais homossexuais pra vida toda. Para cada uma de nossas “regras”, tem uma infinidade de exemplos de animais que não as seguem. E as pessoas continuam justificando seu preconceito com o adjetivo “anti-natural”! Como se já não fosse sem sentido o suficiente considerarem o homem um ser externo à natureza, afinal somos animais, mamíferos, primatas, e não alienígenas.

leao
Leões fotografados durante relação homossexual, em ambiente natural.

 

 Bom, mas é sobre o segundo item, “Será que tudo que existe na natureza é mesmo bom e desejável para nossas vidas?”, que eu quero falar. Aliás, existe também o argumento contrário: “Isso é horrível, animalesco, o ser humano é civilizado e não devia fazer isso!”, o que faz tão pouco sentido quanto o primeiro argumento. Aqui vão alguns fatos da natureza:

  • Alguns animais, como as araras, se “casam”: escolhem um par para a vida toda. Em alguns casos, nem mesmo a morte de um dos dois faz com que ele seja substituído – o parceiro é fiel até o fim da sua própria vida.

araras
Casal monogâmico de araras.

Bonito, né? A natureza é linda, e nós definitivamente deveríamos fazer como esses animais incríveis, são um exemplo de vida para todos nós… certo? Antes de responder, veja esse outro caso:

  • Alguns animais, como os leões marinhos, possuem haréns: os machos mais fortes possuem várias “esposas”, tomando conta delas e de seus filhotes. Os machos que não possuem haréns, por serem mais jovens ou mais fracos, recorrem então à sua única chance de conseguirem ter filhos: quando alguma fêmea fica desprotegida, longe da vista de seu “marido”, eles a estupram.

estupro+girafa+jumenta
Exemplo de estupro entre espécies.

E agora, é bonito? Será que devemos também seguir esse comportamento natural (e na verdade bastante comum) que é o estupro? Bom, vamos ver outros comportamentos pra tirar a dúvida:

  • Há diversos relatos de animais que “adotam” filhotes órfãos, muitas vezes até de espécies diferentes, e cuidam deles como se fossem seus.

  • Muitos animais, quando encontram um indivíduo do sexo oposto com filhotes e que portanto não vai querer acasalar, matam os filhotes para que o outro possa ficar disponível para o acasalamento. É o caso dos leões, por exemplo. E a leoa, depois que seus filhotes estão mortos, acasala com o seu assassino e tem novos filhotes com ele.

E aí, já chegou a uma conclusão sobre a natureza? Ela é boa ou má? Bela ou cruel? Aliás, antes precisamos responder outra pergunta: o que é “bom”? É uma definição relativa, é uma invenção humana. Por isso, a natureza não pode ser tratada como essencialmente boa ou ruim, ela é apenas natural. “Bom” ou “ruim” são juizos de valor e vêm do observador, não do fato em si. Somos nós que julgamos o que é bom. Para guiar nossas escolhas, existem princípios éticos, criados por nós. Assim, espero que a biologia possa descansar dessa discussão. A observação da natureza nos mostra como as coisas são, não como elas “deveriam ser”. Temos que usar, para isso, outros critérios. O meu, eu já escolhi: “Faz mal a alguém?” e “A quem?”. Mas cabe a cada um escolher os seus. No próximo post, vou falar sobre as “regras” baseadas na cultura, e como elas também são falhas. 

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4 comentários sobre “A falácia naturalista e outras mentiras

  1. […] tudo que foge a elas. Já falei um pouco sobre a Falácia Naturalista, que você pode conferir aqui.  Como prometido, hoje vou falar sobre a cultura e sobre como ela cria preconceitos tão sem sentido […]

  2. Usar os exemplos da natureza selvagem como parâmetros para justificar o comportamento humano quase sempre incorre no erro de levar a uma conclusão tendenciosa. Porém, argumentar com base no relativismo moral é muito mais do que tendencioso, é incauto. Se cada indivíduo elege, conforme sua própria consciência, o que é certo ou errado, sem remeter a uma autoridade suprema, não haverá ética ou moral que possa prevalecer. Muitos naturalistas creem em teorias absurdas, e tentam impor sua fé filosófica como fato incontestável. Afirmar que os princípios éticos e morais são criação humana não é, em si, uma verdade comprovada. É, em tese, o mesmo que afirmar que o pensamento provém da matéria. Quando ateus e agnósticos aplicam princípios morais em sua vida, eles o fazem tomando emprestado valores consolidados a partir de algum fundamento religioso. O maior problema atual é que a fé inabalável no naturalismo tem impedido a muitos de reconhecerem que as inúmeras evidências do mundo natural apontam para um criador sobrenatural, cuja inteligência e poder suplantam infinitamente a capacidade do intelecto humano. Não se trata de religião, trata-se de lógica racional. É bem verdade que crer ou não em determinada divindade é uma questão de fé, Todavia, a fé em Jesus Cristo não se sustenta meramente na vontade de crer, mas sim numa série de eventos históricos cuja veracidade está à prova para quem deseja conhecer a fundo a Verdade, como fizeram grandes homens da ciência: Schrödinger, Planck, Pascal, Faraday, Maxwell, Newton e tantos outros que contribuiram verdadeiramente para o conhecimento humano, reconhecendo a supremacia de Deus, diferente de um punhado de ateus cuja contribuição científica é mero sopro de devaneio. Não há um único ateu que tenha enunciado sequer uma Lei universal da ciência! Vamos acabar com as fábulas do evolucionismo, os achismos da psicanálise, a pregação fanática do marxismo, e voltar a fazer ciência de verdade!

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