A linha de produção educacional

Esse foi um texto que escrevi, na hora sem propósito, quando recebi minhas notas do ENEM no final do ano passado. Na hora, queria mesmo era criticar essa forma de avaliação, mas acabou que virou uma crítica do sistema educacional brasileiro como um todo. Queria, antes que leiam, deixar claro que minha crítica está a milhas de distância do que o PECEP é e representa. Acho que são projetos como esse que me dão esperança nesse sistema que eu vejo sendo segurado pelas pontas. Afinal, o PECEP não é um simples pré-vestibular, é um projeto educacional comunitário, movido pela boa vontade das pessoas que o compõe.
 

 Você estudou a sua vida toda. Tudo bem que nos últimos anos foi menos do que antes por uma série de complicações. Mesmo assim, as suas notas continuaram boas, as vezes até excelentes. E você sempre achou que seria o bastante, estudar a sua vida toda, enfiar um bando de coisas na sua cabeça e receber um papel com um número alto e se sentir satisfeita. Essas coisas você não sabe por que você aprende, você não sabe pra quê você aprende, nem as aplicações na vida cotidiana, é só um mais um é igual a dois. Você continua a montar a sua vida acadêmica numa linha de produção e não sabe o produto final. As coisas ficam desconexas, o que você aprendeu na aula de química inorgânica ano passado já está embaçado na sua memória que está perdendo espaço com coisas que não fazem o menor sentido.

Às vezes você se interessa, lê algo cativante, assiste uma aula boa, aprende algo que te marca ou que você quer saber mais sobre. Mas aí tem as provas, os testes, os simulados, as notas, e isso se perde, você para de apreciar aquilo ou esquece, só porque virou obrigação e há expectativas para serem cumpridas. Aquela aula de estética do segundo ano já não está clara em sua memória. E mesmo se estivesse, você não tem tempo, porque precisa decorar a tabela periódica. E todos sabem que velocidade é igual à variação do espaço sobre a variação do tempo, mas ninguém sabe os seus direitos e deveres civis. A escola parou de construir cidadãos, constrói trabalhadores, alienados, pessoas que vão continuar a enfiar coisas na sua cabeça sem questionar, que vão produzir ou contribuir para o processo de produção.

Enfim, chegando ao ponto, no final da sua vida escolar, você está superlotado de informações que logo se apagarão da memória, e está lá em seu estábulo pronto para largar corrida. O sinal toca e é uma corrida contra o tempo, contra a sua humanidade, onde os que sentem, seja lá o que for (fome, sede, vontade de urinar, frio, nervosismo) são mais fracos e poderão ir pior. Os mais frios vencem. A objetividade é supervalorizada e a subjetividade vista como coisa para artistas e vagabundos. Vai fazer filosofia? Ih, vai ser pobre… E é o que a historia mostra não é? Sabedoria e questionamento pra que? Numa sociedade de alienadores e alienados, não tem escapatória. Mesmo que você questione e reivindique, precisa comer, precisa ter uma casa, roupa, tempo de lazer, pagar impostos, viajar… E você se subordina à um patrão ou vira um patrão porque não tem escolha. E mesmo que você escape dessa situação (que é raro), a sociedade acaba achando um jeito de te envolver na sua teia. E se soltar da teia é muito difícil, o esforço é muito grande, e a gente desiste…

Tudo isso para falar que não importa o que você fez ao longo da sua vida escolar, só importa o número que você tirou no ENEM e no vestibular, ninguém sabe o seu nome, quem você é, de onde você veio, quais são os seus princípios, o que você gosta, enfim, é desumano. É mais fácil eliminar um número do que uma pessoa. Todos ouvimos que é um processo democrático, mas é realmente? Como algo pode ser democrático, ou qualquer outra coisa, se não tratamos as pessoas como pessoas, e sim como números?

Por: Naomi Baranek

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