Duas semanas na Maré

Em 1987, Eduardo Coutinho lançou o documentário Santa Marta: duas semanas no morro (recomendo muito). Tive meus dias de Eduardo Coutinho em março deste ano. Dei aula por duas semanas, ou 30 horas, numa escola na Maré. Abaixo segue um pouco do que vi e vivi (como ficou grande dividi em dois posts):

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A comunidadeA Maré é o conjunto de 17 comunidades construídas sobre um manguezal aterrado entre a Linha Vermelha e a (oi oi oi) Avenida Brasil. Reúne aproximadamente 130 mil pessoas e seu Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) é o quinto pior da cidade, semelhante ao do Turcomenistão. Ela é ocupada por duas facções de tráfico e uma milícia.

 

A escolaO CIEP municipal no qual dei aula, que atendia crianças entre 5 e 10 anos, ficava a 10 minutos de caminhada da Avenida Brasil. Mais precisamente na “faixa de gaza”, rua que divide as áreas de duas facções. Devido ao perigo iminente e às recomendações “dos meninos” (eufemismo para “traficantes”), os alunos passaram a entrar e sair pelos fundos. Sem saco de dar a volta na escola para buscar os filhos, os pais fizeram um buraco no muro lateral. Depois de uma queda de braço em que a escola fechava o rombo e eles reabriam, o buraco foi legalizado e transformado em porta. Dias depois, a entrada voltou a ser pelo portão principal.

 

Os paisConheci os pais das crianças na reunião mensal com a diretoria. A impressão é que eles não entendem a importância da escola, nem teriam muito porque entender, já que a maioria deles não passou do ensino fundamental e não sabe ler nem escrever. Depois de um monólogo da diretora adjunta, que tomou 90% da reunião e mereceu pouca atenção da plateia, as perguntas buscavam quase exclusivamente saber sobre os benefícios do governo que dependiam da assiduidade do filho, como Cartão Carioca.

Alguns pais também não demonstravam um grande carinho pelos filhos, para não dizer o contrário. Segundo a diretora, gracejos como “Cadê essa vaca que tá demorando?” chegavam a ser ditos pelos pais enquanto esperavam impacientemente as crianças.

 

O governoO descaso do governo com a educação é flagrante. A burocracia é infernal eImagenão há um planejamento claro da Secretaria de Educação. As diretrizes mudam como o vento, e a cada semana há uma novidade sem sentido. Quando chegamos na escola, já depois do carnaval, ainda não estava definido quando nem em que turmas seriam as aulas. Ao passo que nós não podíamos lecionar devido à falta de autorização, algumas turmas não tinham aula por falta de professores efetivos. A única preocupação real da Prefeitura é com os números para a propaganda. Mas um deles, chocante, nem a maquiagem oficial consegue esconder: o salário de R$ 700 dos professores, sobre o qual falarei no próximo post.

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