A feijoada de Domingo e o fim do mundo

Por Cecilia Alkimin

Um almoço de Domingo com meus amigos me motivou a escrever esse texto. Com o dia 21 de Dezembro chegando, é quase inevitável que as conversas à mesa fujam ao assunto fim do mundo. Cada um possui uma teoria, alguns, secretamente, acreditam que pode ser possível a profecia do fim, outros dizem que é apenas um novo ciclo começando e que a Terra não irá acabar realmente. A teoria mais interessante que ouvi foi a de um amigo, que baseado na cosmologia (ciência que estuda a estrutura e evolução do Universo) afirmou que ao longo dos milênios existiram diversos ciclos, este novo seria um em que o ser humano evoluiria e se tornaria melhor. Perdoem-me os estudiosos da cosmologia, posso ter entendido tudo errado, confesso que meu nível de abstração para esse tipo de tese é bastante limitado. O que de fato importa nesse tema é a certeza da grande maioria de que o dia 21 de Dezembro representa uma melhora na humanidade.
Pois é desse ponto que quero partir. Será que de tal data em diante estaremos de fato caminhando para um mundo melhor? Afinal, ninguém irá mudar suas concepções de vida de um dia para o outro. Argumentei exatamente isso durante o almoço, retrucaram afirmando que essa mudança faz parte de um processo que já estaríamos vivendo. Cheguei em casa e não consegui deixar de pensar nesse tal processo. Exemplos recentes, sobre os quais falarei depois, me deixam na dúvida quanto o tal “caminho da evolução” que estamos seguindo. Vamos nos ater aos bons exemplos, por enquanto, conquistas incríveis como as Constituições modernas, cujo valor supremo é a dignidade da pessoa humana. Apenas para esclarecer, foi depois de Hitler conquistar e assassinar praticamente metade da Europa que as Constituições dos países foram alteradas e passaram a proteger a dignidade das pessoas, impedindo que novos Holocaustos aconteçam. Neste momento, você, meu caro leitor, deve ter concluído que quem vos escreve é uma estudante de Direito, mas não se preocupe, tentarei deixar o “juridiquês” de lado para tornar a leitura agradável.
Vamos voltar aos maus exemplos, que me fazem crer que a humanidade não está lá tão bem das pernas. Recentemente, fui à uma festa cuja grande inovação era a presença de anões. Por favor, não me entenda mal, eu nada tenho contra os anões, muitíssimo pelo contrário. A questão é que única função deles na festa era entreter e animar os convidados por serem diferentes de grande parte da população. Em outras palavras, eles estavam ali para que rissem às suas custas. “Ah, mas eles estavam adorando, dançando super animados, tiraram fotos com quem pedia! Sem falar que estavam sendo pagos por um emprego digno, melhor que roubar ou morrer de fome.” Foi o que eu ouvi, ao dizer que não me sentia confortável naquela situação. Mas o que há de digno em ser a piada da festa?! Acho isso tão indigno ao ser humano quanto roubar, é a falência do Estado em seguir seu preceito máximo, mais uma vez a tal da dignidade, e não ser capaz de prover empregos até mesmo em situação de desigualdade.
Não são apenas os anões que sofrem com esse tipo de pensamento. Já vi gente esclarecida e estudada dizer que os mendigos se apropriam das ruas, como se eles adorassem morar lá, como se fosse prazeroso passar a noite embaixo de marquises. Eles poderiam, afinal de contas, ir para os abrigos que existem, não o fazem porque não querem. Ninguém em sã consciência prefere estar ao relento do que sob os cuidados de um abrigo, a não ser que este seja tão degradante quanto aquele. Bom, exemplos desse tipo não me faltam, eu poderia passar horas escrevendo casos que comprovem meu ceticismo quanto uma humanidade melhorada – por incrível (ou não) que pareça a faculdade de direito me proporciona um contato diário com impropérios tais quais os citados.
Meu curso, ainda assim, me proporciona momentos que me fazem questionar minha própria descrença em nós mesmos. Li uma vez uma sentença da Corte superiora francesa, sobre um caso que envolvia anões (ainda eles, claro), os quais faziam parte de um show em uma boate e eram arremessados de dentro de canhões para a alegria dos presentes. Entendeu-se que a dignidade da pessoa humana é um valor tão essencial, que nem mesmo a própria pessoa pode aliená-lo. Isto é, ainda que os anões gostassem de servir como bolas de canhão, o que eu honestamente duvido, esse não era um trabalho que seguisse os preceitos da Constituição francesa e, portanto, foi proibido. Depois dessa, ponto para a humanidade, ainda que sejam poucos os que concordam comigo e com essa decisão, é nesses que deposito minha esperança de prosperidade.
Independente de suas crenças acerca do dia 21 de Dezembro de 2012, é bom aproveitar essa data com tanta significação para povos e culturas diferentes e pensar sobre o rumo para o qual estamos nos encaminhando. Apesar de ao longo desse texto parecer o oposto, acredito que nós estejamos em um bom caminho, só não podemos deixar de buscar a melhora das coisas achando que tudo se resolverá sozinho, porque estamos entrando em um “novo ciclo”. Uma simples conversa com amigos pode gerar uma boa reflexão, como foi para mim. Espero que esse texto tenha tido o mesmo efeito para você. Enfim, feliz fim do mundo, vamos torcer para o próximo ser melhor que este!

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