Lembranças do Anjo Pornográfico

O maior tradutor da vida cotidiana. Essas palavras sintetizam a figura de Nelson Rodrigues que, no último dia 23 de Agosto, completaria cem anos. Gênio da literatura, do jornalismo, do teatro e portador de olhos que enxergavam os desejos mais profundos do ser humano, o tricolor fanático construiu uma carreira fora do normal, cheia de momentos de luz e fases obscuras, mas sempre conservando a sua postura crítica, que o levou a enfrentar dificuldades que foram desde a sua expulsão do Colégio Batista, até as proibições impostas pela censura às suas peças.

Nelson Falcão Rodrigues nasceu em Recife, no dia 23 de Agosto de 1912, foi o quinto filho dos quatorze que o casal Maria Esther e Mário Rodrigues teriam, mas não demorou muito para o futuro escritor se mudar da capital pernambucana em direção ao Rio de Janeiro. Os motivos estavam ligados à carreira do seu pai, deputado e jornalista do Jornal do Recife, que ao sofrer constantes perseguições acabou se mudando para o município carioca para trabalhar como redator parlamentar no Correio da Manhã.

Ainda durante a infância, Nelson começou a ser protagonista de episódios curiosos. O primeiro deles foi quando se viu proibido de frequentar a casa da sua vizinha porque foi flagrado aos beijos e “coisas mais” com a filha da nobre senhora. O espanto estava na idade do pernambucano na época: quatro anos de idade. Um pouco mais velho, ganharia um concurso de redação em sua escola, e o tema deixaria a professora perplexa, Nelson tinha escrito uma história de adultério. Além dos namoros às escondidas e as histórias esboçadas, essa sua primeira fase da vida propiciou um acúmulo de bagagem da vida popular que, mais tarde, marcariam as peças e crônicas do autor como o cotidiano típico da classe média e os imperativos sociais da moral vigente. Garoto recuado em seus pensamentos, Nelson aproveitava o seu tempo devorando os maiores títulos românticos do século XIX e, a partir 1919, torcendo para o time que cultuou durante toda a vida, o então tricampeão Fluminense.

Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico

Nelson Rodrigues, o anjo pornográfico

Na década de 1920, seu pai fundou o jornal A Manhã – depois de uma desavença com Edmundo Bittencourt –, que trazia como um dos integrantes da seção policial, com apenas treze anos, o novato Nelson Rodrigues. A experiência que para muitos poderia ser apenas um trampolim para outra redação, para o apaixonado pelo romantismo humano, significou uma admiração – que beirou a obsessão – aos crimes passionais e os pactos amorosos entre os jovens casais, comuns à época. A convivência com esses casos serviu de expiração para suas crônicas e romances, sempre polêmicas e críticas às instituições sociais, principalmente o casamento. Com o passar do tempo na seção, chamou a atenção dos seus colegas pela habilidade e capacidade de engrandecer fatos cotidianos. Mal sabiam aqueles que eram privilegiados por trabalharem ao lado de um dos maiores nomes das letras brasileiras…

Em 1928, Nelson conseguiu uma coluna na página três da gazeta – a mais cobiçada –, e ali escreveu artigos como “A tragédia de pedra…”“Gritos bárbaros”“O elogio do silêncio”, e “A felicidade”. Degustou por pouco tempo o gosto da coluna, já que depois de inúmeras alfinetadas a Rui Barbosa, seu pai – como castigo pelo atrevimento –, o mandaria de volta as páginas policiais. Duraria pouco, contudo, a sua volta. No mesmo ano, Mário Rodrigues perde o controle majoritário do periódico, e passa a ser diretor. Após interferências do novo chefe em seus textos, o pai de Nelson resolve sair do jornal que fundou.

Se isso poderia significar a ruína da família, parece que a crise teve um efeito contrário. Quarenta e nove dias depois, com a ajuda do vice-presidente da República Melo Viana, Mário fundaria outro periódico que atingiria a marca de cento e trinta mil exemplares: Crítica. Tentando estragar essa felicidade, o tenente-coronel Carlos Reis decretou uma ordem de prisão de todos os membros da família Rodrigues, por suspeita de assassinato do repórter Carlos Pinto, funcionário do A Democracia. Nelson foi o único que escapou da prisão, isso porque se encontrava em Recife para tentar se livrar da depressão que o assolava.

Curado do abatimento com a ajuda dos familiares, na volta ao jornal de seu pai seria testemunha de uma tragédia que marcaria a sua vida pessoal e a sua carreira. Viu Sylvia Serafim, mergulhada em ódio depois da capa da Crítica do dia 26 de Dezembro de 1929, – que trazia detalhes da sua separação com João Thibau Jr. -, invadir a redação do jornal e atirar em seu irmão Roberto, que morreria devido aos ferimentos. A morte do seu irmão abalou toda a família, e com Nelson não foi diferente. Ficaria noites inteiras acordado em ambientes totalmente escuros, dessolado com a perda.  Para piorar a situação, cerca de setenta dias depois da tragédia, morre Mário Rodrigues com quarenta e quatro anos, vítima de uma trombose cerebral.Paralelamente, na política o azar também encontraria espaço, pois com a revolução liderada por Varga em 1930, os periódicos que apoiaram o seu rival Júlio Prestes são perseguidos, e a Crítica seria o único a sair de circulação.

Com o fechamento do jornal, a família entraria num grave declínio financeiro que a obrigou a vender a maioria de seus bens para arcar com as despesas, além de se mudarem de três em três meses por quase nunca conseguirem pagar os aluguéis. Os ventos começariam a mudar com o convite feito pelo jovem Roberto Marinho, em 1931, ao seu irmão Mario Filho para escrever a página de esportes do novo jornal O Globo. A condição de Mario para assumir o cargo foi que o empresário empregasse os seus irmãos Nelson e Joffre. Condição “aceita”, mas o único que receberia salários seria Mario Filho, o que só acontecia com Nelson em 1932, quando teve sua carteira assinada pela gazeta. Passado pouco tempo, surgia o Mundo Esportivo, criado por Mario filho com a “benção” de Roberto Marinho, e que sofreria com a falta de notícias já que seu início coincidiu com o fim do campeonato de futebol. A saída encontrada por Mario Filho foi a criação do primeiro concurso formal entre as escolas de sambas, a manchete seria elaborada por Nelson Rodrigues, e a primeira campeã a Mangueira. Nascia, pela manchete de Nelson e iniciativa de seu irmão, a competição mais importante do carnaval do Rio de Janeiro.

Dentro do contexto de 1934, o ano do terror da tuberculose, a tosse seca e a febre persistente serviram de alerta para Nelson. A ida ao médico só confirmou o que parecia adivinhar, foi diagnosticado com tuberculose pulmonar. A parir desse momento, viajou para Campos do Jordão para se tratar, sem previsão de volta, onde passaria quatorze meses recebendo pouquíssimas visitas. Roberto Marinho, ciente do estado do escritor e das dificuldades da família, continuou pagando os salários do enfermo, o que lhe rendeu a gratidão de Nelson até o fim de sua vida.

Em 1940, depois de muito sacrifício para convencer a sua futura sogra dos benefícios do casamento, ele se casa escondido com a sua colega de redação Elza Bretanha e se muda de novo para a Zona Norte da cidade, no Engenho Novo. Seis meses depois, ao se queixar com a esposa que acordou sem enxergar nada, descobriu que perdera 30% da visão, sequela da tuberculose que o atormentou. Um golpe e tanto para um ser humano que acumulava tantas infelicidades e dificuldades, mas isso não o fez perder o brilhantismo e a genialidade, e o ano seguinte confirmaria isso.

Em 1941, Nelson Rodrigues criaria a sua primeira peça de teatro A mulher sem pecado, na qual depositou esperanças que o tiraria da turbulência financeira que o assolava. Para sua frustração, mesmo enviando o texto para grandes nomes como Carlos Drummond de Andrade e Álvaro Lins, ele não consegue encená-la naquele ano, o que só foi possível devido ao grupo “Comédia Brasileira”, que inaugurou, no ano seguinte, a vida de dramaturgo do anjo pornográfico. Não obteve o sucesso esperado, mas obteve elogios dos críticos especializados e de alguns amigos. O seu reconhecimento popular viria com Vestido de Noiva, peça dirigida por Zbgniew Ziembinski, e que arrancou aplausos ensurdecedores na sua estreia no dia anterior do aniversário de morte de seu irmão Roberto.

Nelson Rodrigues, nos anos seguintes, colheria alguns frutos do prestígio da peça. Já em 1945, aparece um resultado importante da fama, consegue se transferir para O Cruzeiro, ganhando cerca de sete vezes mais do que Roberto lhe pagava no antigo emprego. No periódico, ele começa a escrever os folhetins que não estavam em alta, e se torna o responsável pela subida espantosa das vendas, que foram de três mil exemplares para mais de trinta mil. Em 1946, termina de escrever Álbum de família e manda o texto para a censura federal. Estarrecidos com tamanho abuso do autor, a maioria dos censores proíbem a peça, o que voltaria a acontecer com Senhora dos afogados (1948), além dos cortes de cenas que outros dramas sofreram. Com dois trabalhos trancados na gaveta da censura, Nelson escreve outro drama, Dorotéia, em homenagem a seu affaire Nonoca. A peça dividiu o público, enquanto uma parte a aplaudia de pé, outra se calava e não sabia o que fazer.

Na década de 1950, o jornalista daria adeus à Chateaubriand e ingressaria no Última Hora, jornal de Samuel Wainer. Lá escreveria a coluna diária baseada em histórias reais “A vida como ela é…”, sucesso indiscutível, e sofreria com os ataques de Carlos Lacerda – totalmente contrário ao jornal que figurava como um dos maiores apoiadores de Vargas –, volta e meia o chamando de tarado. Nesse mesmo intervalo, faria sucesso com “Engraçadinha” e “Asfalto Selvagem”, transformados em livros posteriormente. No começo de 1960, o prestígio da peça “Beijo no Asfalto” – encenada por Fernanda Montenegro e seu marido –, que ficou em cartaz por sete meses pelo Brasil, acaba provocando a sua saída do periódico de Wainer, já que na encenação encontravam-se cutucadas à postura das páginas do jornal para qual escrevia. Acabou voltando para O Globo, onde se encarregava de escrever “Às sombras das chuteiras de futebol”, célebre coluna de esportes, onde o juiz, o apito e o resultado dos jogos era o que menos importava, pois as suas linhas se encarregavam de explicitar a magia e o imaginário do futebol, as simples noticias, para o autor, era ofício dos fracos.

Continuando a sua carreira de escritor, Nelson apresentou para Walter Clark a primeira novela da televisão brasileira “A morte sem espelho”, com grande elenco e música de Vinícius de Moraes. Não deu certo. O caráter “pesado” da história criada pelo anjo pornográfico empurrou a novela que estava planejada para ir ao ar às vinte e trinta, para vinte e três e trinta, desmontando a audiência e forçando o seu autor a acaba-la antes do previsto. Ainda escreveu novelas como “Sonho de amor” e “O Desconhecido”, que foram ao ar graças à influência que Clark gozava nos bastidores da televisão e política. Tentando se aproveitar da popularidade de Nelson Rodrigues, Carlos Lacerda – aquele mesmo que o atacava chamando-o de tarado – ofereceu uma pequena quantia para o jornalista escrever um romance para a Editora Nova Fronteira. Quando o político recebe o livro, se espanta ao ver casos de adultérios e incestos do romance, e o vender para a Editora Eldorado. Para a sua surpresa, a primeira semana do livro foi marcada pelo venda de 8.000 exemplares, igualando o número do recém-lançado Dona Flor e Seus Dois Maridos do baiano Jorge Amado.

Nelson Rodrigues vestido com a camisa do seu maior amor, o Fluminense

Nelson Rodrigues vestido com a camisa do seu maior amor, o Fluminense

A última década de sua vida seria conturbada e cheia de preocupações. Por volta dos anos 1970, Nelson já se encontrava cansado, e com o início dos anos de chumbo da Ditadura Militar tudo ficaria mais complicado. Com conhecidos importantes no regime, o escritor foi inúmeras vezes procurado por colegas de profissão para negociar a soltura de presos políticos, obtendo êxito em alguns casos e em outros não. Em 1972, teve que negociar a própria sorte do filho, taxado de “terrorista” e preso. Conseguiu com o General Médici que o filho fosse mandado para exílio, mas o garoto orgulhoso recusou e fugiu. Depois disso, Nelson se encarregou de ir atrás do menino, temendo que o pior acontecesse com o aumento do conflito armado entre a esquerda e os militares.

Antes de morrer em 1980, por complicações no coração, Nelson Rodrigues ainda escreveu a peça “Anti-Nelson Rodrigues” em 1973, e o seu último grande sucesso “A Serpente” em 1979. Deixando um legado monumental para as letras brasileiras, seja no jornalismo, no teatro, nos romances ou nas crônicas, o anjo pornográfico foi o incumbido de mostrar à sociedade brasileira, extremamente conservadora nas décadas de 1940 e 1950, que nem tudo era como desejavam. Instituições sociais sagradas como o casamento não eram expressões do divino como pensado, e sim, na maioria das vezes expressões dos imperativos sociais que explicitavam o cinismo e a hipocrisia dos seres humanos. Com o seu erotismo, crítica ao cotidiano da classe média e seu tempero conservador, Nelson Rodrigues ficou gravado no imaginário popular. No autor, tudo era de todos e nada era indiscutível ou eterno. Apenas o dono do seu coração… “o Fluminense nasceu com a vocação da eternidade…tudo pode passar…só o Tricolor não passará jamais”.

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