Dica de leitura: “Formas do nada” – Paulo Henriques Britto

Dentre os poetas atuais, Paulo Henriques Britto talvez seja aquele cuja forma é mais característica. Isso porque o mix feito por ele entre a linguagem informal/oral e as formas presas (como sonetos e outras) é notável. Já era notável desde Macau, livro ganhador de prêmios relevantes, porém depois de Tarde, publicado em 2006, esse Formas do nada surge com uma força e unidade superior.

Vê como esse mix se dá nos versos abaixo. Retirados do poema “Biographia literaria”, eles terminam a sucessão, neste trecho, de reflexões acerca do processo de escrita desse eu-lírico irônico e melancólico.

Claro que houve um instante crucial

em que esses cacos mal e porcamente
colaram-se. E pronto: deu no que deu.
Já é alguma coisa. Menos mal.

“Mal e porcamente” e “deu no que deu”, por exemplo, se já não parecem expressões da poesia, muito menos soam como algo presente em versos de exatas 10 sílabas métricas. Por meio de, “petelecos” e “porrada”, Formas do nada se instaura como, sim, um ótimo livro para qualquer leitor – inclusive iniciante.

Observar o jogo de linguagem e o pleno domínio dela é um aprendizado. Um jogo de empurra em que sujeitos surgem por hipérbatos e nada parece no lugar. Até que, ao fim de cada poema, fica em nós a sensação de que tudo está exatamente onde deveria estar.

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Instant replay

A nostalgia pior
é a do instante presente –
sentir que se vive o agora
mas não o suficiente,

desejar tê-lo vivido
em vez de o viver no ato
pra então poder possuí-lo
na nostalgia de fato.

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Biographia literaria (V)

Céu azul. Cores vivas. Você rindo
de alguma coisa ou alguém que está à esquerda
do fotógrafo. É talvez domingo.
É claro que essa sensação de perda

não está na foto, não – não está na imagem
extremamente, absurdamente nítida.
E se fosse menor a claridade,
ou estivesse sem foco, ou tremida,

ou fosse em sépia, ou preto e branco,
talvez a foto não doesse tanto?
Você, às gargalhadas. O motivo

você não lembra. A foto é muito boa.
Naquele tempo você ria à toa,
você lembra. Você ainda era vivo.

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