A despedida de Giba

Quando a Rússia marcou seu último ponto na vitória, de virada, por 3 sets a 2 em cima do Brasil nas quadras de Londres, não só ganhou a primeira medalha de ouro no esporte depois do fim da URSS, como também encerrou a carreira na seleção de um dos maiores atletas da história do esporte brasileiro: Gilberto Amauri Godoy Filho, o nosso Giba.

A sua despedida, já anunciada antes dos Jogos, marca também o fim de uma geração que colocou o Brasil no topo da lista dos melhores times de vôlei do mundo. Liderando craques como Ricardinho, Serginho, Gustavo e Rodrigão, o capitão Giba se consolidou como a principal referência, ao lado do treinador Bernardinho, do time que apaixonou o Brasil e mal acostumou os torcedores com títulos atrás de títulos. Infelizmente, os novos amantes do vôlei não poderão acompanhar mais partidas do craque na seleção, apenas nos jogos pelo seu novo clube o Drean/Bolívar (ARG), pois, com trinta e cinco anos ele pretende deixar espaço para que os novos destaques possam brilhar no selecionado verde e amarelo.

Com uma carreira simplesmente brilhante, Giba ganhou o seu primeiro título durante a infância, quando depois de ser diagnosticado com leucemia aos seis meses de idade foi considerado curado aos um ano e meio. Depois de superar essa barreira, começaria a sua vida no esporte praticando um pouco de todas as modalidades, mas não demoraria muito para enxergar no vôlei o caminho certo. Mas, assim como o capitão da seleção de futebol Cafú, no começo da sua caminhada não convenceu a todos de que era um grande jogador e recebeu um não numa peneira para integrar a equipe do antigo clube Banespa (SP). Em resposta a recusa do grande de São Paulo, no mesmo ano, em 1993, Giba conquistaria o seu primeiro grande título, o Mundial Infanto-Juvenil na Turquia e, de quebra, ainda ganharia o prêmio de melhor jogador.

Giba comemora a medalha de ouro em Atenas 2004

Giba comemora a medalha de ouro em Atenas 2004

Os anos seguintes seriam os responsáveis por tornarem o jogador uma das estrelas do vôlei brasileiro. Conquistando títulos pelos times por onde passou no Brasil, Giba despertou o desejo dos melhores times e, em 2001, se transferiu para o Ferrara, equipe da Liga Italiana – uma das mais fortes do mundo. Na Itália passou sete anos – jogou também no Cuneo, entre 2003-2007 –, ganhando campeonatos e status na mídia especializada. Paralelamente, era um dos pilares da nova geração que surgia na seleção de vôlei, conquistando torneios importantes como a Copa do Mundo, Campeonato Mundial e duas Ligas Mundiais. A seleção de Giba, nesse momento, ajudava os brasileiros a esquecer as dores das seguidas derrotas no futebol e a desilusão com o quarteto mágico formado por Ronaldo, Ronaldinho, Adriano e Kaká. A coroação desse time guerreiro viria nas Olimpíadas de Antenas em 2004, com o ouro que parecia certo para a maioria dos torcedores. Para Giba, esse momento foi ainda mais especial, já que além da medalha dourada, conquistou o título de melhor jogador dos Jogos e ainda viu nascer Nicoll, sua primeira filha com a romena  Cristina Pirv, sua mulher.

Mas nem toda sua passagem pela Itália deixou saudades. Um episódio pegou todos de surpresa, e abalou a imagem do atleta exemplo de comportamento e liderança. Em 2003, o craque foi flagrado num exame antidoping, que acusou substâncias subprodutos da maconha, e pegou uma suspensão de dois meses da liga italiana. Passado o momento confuso do atleta, ele se recuperou e, três anos depois do Brasil ganhar o Campeonato Mundial atropelando a Polônia na final por 3 sets a 0, ele recebe o prêmio de melhor jogador do mundo. No ano seguinte, Giba se transferiu para Rússia, para defender o Iskra Odintsovo, onde passou por situações curiosas, como a paralisação parcial da face durante cerca de 20dias, e aguentou temperaturas de menos 40º – fatos decorrentes da realização do campeonato entre setembro e maio, bem no meio do histórico inverso russo. Defendo a seleção, teve a oportunidade de conseguir a segunda medalha de ouro nas Olimpíadas de Pequim, contudo, o sonho não se realizou: a seleção americana derrubou os favoritos e levou para casa a medalha dourada. Mesmo enfrentando algumas críticas pela imprensa e torcedores, aquela geração tinha o respeito de todos, e já trazia a segunda medalha seguida. Se a derrota trouxe tristeza para Giba, a felicidade não deixou de brindá-lo após a competição na China. Isso porque o nascimento do segundo filho, Patrick, representou mais uma conquista para o ícone do esporte.

Depois de alguns meses voltou ao Brasil para defender o Pinheiros/Sky, retorno que marcaria a sua volta as quadras brasileiras depois de mais de oito anos no exterior. Sua passagem pelo time paulista ficaria marcada por inúmeras lesões, que atrapalharam o rendimento do ponteiro-passador nos dois anos que ficou no clube. Em 2011, acertou a sua ida para o Cimed, de Florianópolis, por onde passou sem ao menos jogar uma partida. Essas seguidas lesões nos últimos anos são novas na carreira do jogador, conhecido por raramente ficar afastado de partidas por motivos médicos. O que poucos sabem, é que Giba também nunca tinha feito uma cirurgia nesses 20 anos, e fez essa escolha mesmo tendo a opção de tratar a lesão à longo prazo com fisioterapia porque tinha um último desejo: disputar as Olimpíadas de Londres no meio do ano.

Giba e Bruninho depois da derrota para a Rússia em Londres

Giba e Bruninho depois da derrota para a Rússia em Londres

Esse último capítulo da carreira do jogador na seleção todos conhecem. Mesmo ajudando os garotos da nova geração com sua experiência e liderança, o ponteiro não conseguiu a sua segunda medalha de ouro, mas ajudou a seleção a entrar para a história como o país que mais disputou finais olímpicas seguidas, e trouxe a prata depois de perder para o grande time da Rússia. O jogador que já tinha pensado em parar depois de Atenas e no final de Pequim, agora está aposentado da seleção, e já pensa no fim da carreira pretendendo jogar mais uns três anos – seu próximo time será o Drean/Bolívar da Liga Argentina. Hoje, com toda a humildade e consciente da sua importância para o vôlei, enxerga nas figuras de Murilo e Bruninho os seus potenciais sucessores como lideranças da seleção de Bernardinho, e ao contrário de ex-jogadores como Giovani, não quer ser técnico, mas sim trabalhar na parte administrativa do esporte. Sobre o futuro de Giba pouco se sabe, mas o que 200 milhões de brasileiro tem certeza é que o paranaense que sonhava em ser veterinário se transformou em ícone, tendo lugar cativo ao lado de “foras de sério” como Guga e Airton Senna no coração dos torcedores.

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