A smartphilia e seus problemas

Não tem jeito, os brasileiros se entregaram de vez ao seu primeiro amor da década. Com o país vivendo um momento de êxtase no plano econômico, com ofertas de emprego, oportunidades e melhores postos de trabalho – refletindo numa melhoria no bolso de cada um –, a população parece ter começado uma verdadeira caça aos sonhados bens de consumo. E no topo dessa lista figuram os famosos produtos tecnológicos, como Tablets, TV’s cada vez mais avançadas, máquinas fotográficas, e aparelhos de som, disputando cada olhar de desejo dos consumidores. Mas, o brasileiro já tem o seu preferido. O celular do século XXI, que dentre todas as suas qualidades a menos importante é ser um telefone móvel, hoje se tornou uma verdadeira mania. O smartphone é hegemônico, os que têm não largam, e os que não têm sonham ter.

Os números são os preferidos quando a tarefa é mostrar para o público a dimensão de qualquer fenômeno, então, antes de tudo, torna-se necessário explicitar o cenário que temos atualmente. Ao todo, 21 milhões de pessoas – com mais de quinze anos – têm um smartphone no Brasil, para ter uma ideia do tamanho desse dado, essa quantidade se iguala à população de Angola. Isso mesmo, dentro do território brasileiro tem uma Angola inteira de smartphones se comunicando o tempo todo! Tirando o lado positivo dessa massificação tecnológica, que traz inúmeros benefícios para a sociedade, como o aumento da interatividade e o aumento de produtividade em várias áreas, o que temos é uma situação preocupante, principalmente pela verdadeira febre que esse tipo de tecnologia trouxe consigo, causando dependências e até acidentes graves.

Um motorista vai dirigindo tranquilamente com uma mão, e na outra navegando no seu smartphone… De repente, uma batida. Pra quem pensa que essa situação é totalmente inverossímil ou raríssima, a informação de que dirigir no celular é a quarta maior causa de acidente pode soar como brincadeira, mas esse tipo de conduta, que infelizmente é reproduzida por grande parte dos motoristas, vem matando muita gente. Atrás apenas do excesso de velocidade, do uso de bebidas alcoólicas e drogas, e do cansaço, o uso de celular ao volante vem aumentando a cada dia, e com a revolução dos smartphones, que disponibilizam milhares de atrativos a mais para a pessoa não largá-lo, o quadro só tende a piorar. Solução? Não há, pelo menos enquanto vivermos sob a ditadura das redes sociais, onde é inimaginável não atender ao alarme de uma nova mensagem do seu amigo no Facebook.

Essa é, sem dúvida, a característica que mais aproxima o usuário desse novo celular, a extrema conectividade. Estar à frente de um smartphone é interagir com mundo inteiro de uma única vez. E-mails, fotos postadas, chats, vídeos populares. A todo o momento você está se relacionando com alguém, seja apenas por entretenimento, ou por trabalho. A primeira opção é soberana, basta observar com quanta gente você pode entrar em contato tão rápido, de maneira tão prática, e em quase todo lugar – menos nas “ilhas infernais” onde a rede é fraca ou não “pega”. Os maiores símbolos dessa inserção nesse mundo ultrainterativo são os jovens, que hoje são verdadeiros necessitados das novidades propiciadas redes sociais. O que à primeira vista parece um ganho, e até uma economia – já que eles não estão gastando tubos de dinheiro pendurados no telefone, como diriam as mães –, se analisado com mais cuidado pode ser considerado outro ponto problemático. Essa conectividade de tempo integral vem acabando com os antigos espaços de sociabilidade e a antiga disposição dessa faixa etária. Praças e parques dos bairros, que na década anterior eram sempre cheios de jovens que iam se divertir, praticar esportes, namorar e se relacionar, hoje experimentam uma calma perturbadora e um silêncio que diz tudo. Para que ir à praça encontrar os colegas para combinar o programa de logo mais, se apenas uns cliques podem fazer isso dentro de segundos? E jogar bola na rua? A competição é desleal, e cada vez mais vemos jovens de frente para o smartphone durante horas se relacionando em páginas como Facebook e Orkut, e vidrados nos games de alta definição. E se indagado por que não sai um pouco pra encontrar seus amigos, a resposta é: “Mas eu estou falando e jogando com todos eles aqui, fica tranquila!”. O resultado é a morte dos antigos espaços de sociabilidades típicos da esfera local, extremamente necessários para o desenvolvimento de valores humanos, e o crescimento da sedentarização que pode acarretar em doenças como a mortal obesidade. Mas, essa conectividade facilitada não está só atingindo jovens ansiosos por entretenimento, os adultos são os protagonistas de outro problema que vem crescendo com o uso dos portáteis: a invasão do trabalho nos ambientes familiares e de lazer.

Um bom profissional é aquele que está à disposição, e que se orgulha por sua dedicação à empresa. Pois bem, com essa massificação dos smartphones o sonho do patrão foi realizado: o empregado online em qualquer hora e lugar, só esperando um chamado do seu superior. E é isso que vem ocorrendo nos lares contemporâneos, homens e mulheres que mesmo nos momentos considerados “sagrados” – como almoço, jantar, filme com a família –, não hesitam em atender ao mínimo sinal do seu superior. Pesquisas estipulam que os profissionais que têm celulares com internet trabalham o equivalente a seis semanas a mais por ano, e o pior, recebem o mesmo salário do seu colega que não é conectado 24hrs por dia.

Nem só rosas, nem só espinhos. Ao comprar um smartphone, é preciso estar ciente dos problemas que uma dependência extrema de um aparelho com essas facilidades e atrativos pode gerar. Acidentes de trânsito, diminuição da importância dos espaços de sociabilidade, sedentarização, aumento da carga de trabalho… Você pode estar exposto a tudo isso se virar mais um refém desse eletrônico do tamanho da sua mão. Mesmo assim, de maneira nenhuma a saída é criar uma espécie de “smartphobia” aos novos aparelhos, até porque eles representam uma evolução importante nos meios de comunicação com a sua conectividade e praticidade singulares até o momento. Os especialistas afirmam que daqui a uma década, os celulares tradicionais estarão praticamente fora de linha, então, não adianta fugir, é entrar nesse mundo e tentar não se tornar mais um smartphílico. Boa sorte…

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