Gira-benga NasOropa

Por JD Lucas e co-autoria de Isadora Libório

Quem assistiu ao encerramento das Olimpíadas de Londres viu representadas todas as benesses que a Inglaterra proporcionou à História Universal. Expectadores vertiam lágrimas emocionadas enquanto imaginavam como seria o céu por trás da cortina de fuligem expelida pelas torres industriais. Enfermeiras de filmes de guerra erguiam placas pra lembrar que o sistema de saúde britânico é uma referência mundial, enquanto sorriam com seus dentes brancos, antes de desapareceram completamente na fumaça. E a boa nova já ganhava os rostos de semblante cálido: ressuscitaram as Spice Girls!

O mundo aplaudia, aos pés de sua majestade, não só a saúde modelo e a revolução que mecanizou o trabalho e criou a superpopulação que se debate agora – neste momento! – por comida e celular da moda. Aplaudia o saque aos tesouros egípcios e a exploração do minério precioso na África, enquanto o povo descobria que diamantes não são comestíveis. Aplaudia também toda riqueza usurpada de outras nações, e toda traição e sangue derramado na Oceania, quando soldados ingleses se fazendo de amigos ofereciam presentes ao povo aborígine, e, em silêncio, os envenenava com arsênico. Aplaudiam a destruição dos templos que foram construídos quando não havia máquinas e era a mão do homem devotado que empilhava pedra por pedra aquele que seria o abrigo espiritual de um povo.

Havia bastante fumaça, não dava mesmo pra perceber tudo isso.

A Inglaterra foi uma das grandes responsáveis pelo processo civilizatório que o mundo viveu até o século XX. E na farsa histórica do mundo, representa o mesmo papel que Dr. Jekyll, homem sério e compenetrado, respeitável e bom, um lord, que subitamente oferece uma contraparte maligna e desconcertante ao mundo; o monstro.

No fim do evento foram reservados alguns minutos para que o Brasil representasse o que o mundo pode esperar daqui a 4 anos. E dá-lhe gari sambando, e mulheres, e índios fazendo gira-benga, enquanto aqui o povo indígena do Xingu luta sem forças diante da máquina que decidiu destruir sua terra pra construir outro espelho hidrelétrico.

Quando tivermos uma Olimpíada no Brasil, o que será que vamos expor? Podemos colocar no palco enfermeiras pouco orgulhosas erguendo placas com os índices catastróficos do SUS, e a representação da nossa herança indígena devastada pelos colonizadores europeus, e todo um panteão de deuses tupis e yanomamis devorados pela técnica e pela catequese. Faríamos isso sambando, que é a nossa especialidade, e poríamos nossos jovens pra erguer seus bilhetes únicos, símbolo máximo de nosso direito de ir e vir.

Será que haveria lugar pros professores das universidades reivindicarem melhoras na estrutura do ensino? E pros profissionais da saúde pleitearem condições humanas mínimas de trabalho? Será mesmo que poderíamos subverter o símbolo olímpico e, ao invés de expor nossas belezas ao mundo como se mostrássemos a bunda – e que bunda! – erguer o véu dissimulado da falta de vontade política e mostrar os interesses escusos da mídia e de indivíduos protegidos pela legislação que deveria condená-los? Talvez pudéssemos trazer de volta As Meninas e o bomxibom, e tudo terminasse bem, unindo o discurso marxista com algumas bundas.

Será?

Belo Monte aguarda.

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Um comentário sobre “Gira-benga NasOropa

  1. mermão, é isso mesmo! vamos chamar o michel melamed pra coreografar o espetáculo! e que espetáculo! índios travestidos de burgueses arrancando seus ternos giorgio armanis e jogando-os ao público, apontando e reprovando a subordinação cultural e física a que são sujeitos, cenas de sexo explícito misturadas a violentos gols, nossas brands de televisão sempre de olho em nós (vamo dar uma espiada?) presentes em todo o lugar do estádio, câmeras apontadas para o público, milhares delas, os seguindo com os movimentos. porrada gratuita, aplausos, capitão nascimento e companhia, prostituição de todos os setores da sociedade (as putas são as mais éticas!)! ah sim! vamos fazer os gringos queimados de sol experimentarem o que é e como é bom ser brasileiro. porra, tu tem que ver o adeusàcarne do michel! tem-que-ver. se não rolar, espera o dvd (deve sair daqui a uns 10 anos segundo ele haha, mas vale a pena esperar!)

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