Cultura de cabelo oxigenado, óculos escuros na testa e roupas extravagantes. “Ta bom pra você?”

Muito se fala sobre a influência social e o sucesso das bandas de rock brasileiras dos anos 80/90, como os cariocas Blitz e Barão Vermelho – liderado por Cazuza –, os paraibanos do Paralamas do Sucesso, os paulistas do Titãs, e o eterno Legião Urbana de Renato Russo, entre tantas outras bandas que foram responsáveis pela popularização do rock no Brasil. Esse grande movimento logo conquistou a juventude, que vivia um período de abertura política e intensa reflexão sobre o futuro da nação, e marcou época em casas de show como o Circo Voador, no Rio Janeiro, e Aeroanta em São Paulo.

Rodriguinho, vocalista do grupo Os Travessos
Rodriguinho, vocalista do grupo Os Travessos

Mas o que muitas vezes é esquecido pelos documentários musicais e pelo povo brasileiro, é que ao mesmo tempo em que o Brasil via o rock nacional despontar, surgia um movimento que seria o divisor de águas dentro do samba e também um dos principais responsáveis pela entrada desse gênero na indústria comercial: o pagode. O “boom” nos anos 90, com os grupos SPC, Negritude Junior, Katinguelê, Soweto e Exaltasamba agitou a música brasileira com o romantismo das suas letras e o gingado único dos seus integrantes. A popularidade que esses grupos alcançaram foi algo singular, conseguindo até tirar das músicas norte-americanas a primeira posição em arrecadação com direitos autorais, proeza que durou até o fim dessa década. Além disso, bateram recordes em vendas de discos, como o grupo SPC que em 1997 conseguiu vender 3,6 milhões de cópias, sendo seguido de perto por outros como Os Travessos, Soweto e Pixote, que passaram da marca de um milhão.

Com músicas que se tornaram verdadeiras trilhas sonoras de romances por todo o Brasil, os shows desses grupos lotavam os ginásios e casas de show, principalmente as paulistas – já que a maioria dos pagodeiros surgiu em São Paulo –, alcançando a marca de 20 a 30 mil pessoas. Depois de conquistar as ruas e invadir as zonas nobres da grande capital, esse novo movimento despertou o interesse da grande indústria musical que viu ali um potencial de venda imenso, e o sucesso não demorou a alcançar as rádios, e depois, superando preconceitos raciais e sociais, os canais de TV.

Quando chegou, o pagode não se contentou com o espaço que os clássicos sambistas dos anos 70/80 tinham conseguido, e logo viraram verdadeiros fenômenos comercias. Seja nas grandes rádios do Brasil, como a Transcontinental de São Paulo, que destinava mais de 70% da sua programação para os pagodes, ou na TV, com dois programas dedicados exclusivamente para esses novos artistas, Ligação na Rede Gazeta e Samba, Pagode e Cia. na Rede Globo. Isso sem contar as várias revistas que se dedicavam a cobrir a vida e o universo desses pagodeiros, como a Cavaco e a Ginga Brasil, colocando ainda mais esses músicos entre os artistas top da época.

Salgadinho, vocalista do grupo Katinguelê
Salgadinho, vocalista do grupo Katinguelê

Quais os motivos que levaram esses grupos a atingirem todo esse sucesso? Podemos enumerar vários. Com algumas inovações na parte instrumental e melódica, como a incorporação de instrumentos de sopro – e o teclado herdado diretamente do Raça Negra – e a mistura de gêneros como o rap/samba do Os Travessos, o romantismo das letras, eternizado em músicas como Farol das Estrelas (Soweto), Tô Te Filmando (Os Travessos), Inaraí(Katinguelê), o gingado característico, a postura carismática que os pobres dos guetos e favelas esbanjavam nos palcos dos programas de TV e nas rádios em que eram convidados, e a vestimenta peculiar, que introduziu verdadeiras modas dentre os jovens, como o cabelo descolorido difundido pelo vocalista Belo do grupo Soweto e Rodriguinho do Os Travessos, ou os óculos na testa que os integrantes do Katinguelê adotavam, foram alguns dos ingredientes que construíram esse grande sucesso.

Além desse tipo de influência, esses grupos tiveram um papel importante do ponto de vista social, principalmente quando abriram as portas dos meios de comunicação de massa para segmentos da sociedade antes poucos lembrados. Favorecido pela mudança de direcionamento da indústria fonográfica que se observa nos anos 90, que passou a visar às classes “populares”, esses artistas foram responsáveis por um aumento da participação dos negros na televisão brasileira, algo de importância relevante associado ao contexto de problematização da questão racial no Brasil que culminaria na lei contra o racismo da Constituição de 1988 – recentemente Salgadinho, vocalista do grupo Katinguelê, em entrevista ao sambista Diogo Nogueira, comentou a discriminação que o grupo enfrentou até conseguir um espaço nos programas de TV. Soma-se a isso, a denúncia social que esses grupos faziam em algumas de suas letras, como na música Gente da Gente (Negritude Junior), na qual Netinho de Paula canta junto com Mano Brown do Racionais Mc’s os problemas enfrentados pela “gente da gente” da periferia paulista, ou em gravações como a música 300 anos, na qual a questão racial também é lembrada.

Assim, o pagode romântico, que muitas vezes é tratado de maneira periférica pela mídia em geral e até por alguns músicos renomados, com certeza merece créditos pelo papel de destaque que teve na música brasileira. Dizer que a década de 90 foi a “década perdida” da música pelo crescimento do espaço que as musicas de caráter popular – o pagode romântico, o axé music e o forró – conseguiram nos meios de comunicação, é, sem dúvida, um exagero e carrega um “que” de preconceito. Quando se falar de cultura musical neste período, não lembre apenas a que atende por refrãos de contestação, calças jeans rasgadas ou cabelos bagunçados, lembre-se daquela de cabelo oxigenado, óculos escuros na testa e que adorava falar de amor e do povo das periferias.

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11 comentários sobre “Cultura de cabelo oxigenado, óculos escuros na testa e roupas extravagantes. “Ta bom pra você?”

  1. Essa é uma visão verdadeira e sem aquelas antigas críticas , feitas pelos antigos sambistas, como mela cueca, peida na colher entre outras coisas . O pagode concerteza cresceu muito nessa época, lutando não contra opnião popular ou pelas outras diversas formas de musica e sim contra seu criador , que em suas palavras via o samba perder espaço para uma musica sem letra e sem conteudo!!! Mas para nos que gostamos desse tipo de harmonia o pagode revolucionol e continua crescendo a cada dia!!

    1. Fala meu bom,

      fico com um meio termo que se encaixa melhor, o samba sempre foi samba, e o pagode sempre pagode. O samba quase sempre teve um lado considerado mais intelectualizado e outro de um caráter mais “popular”, essa diferença fica bem clara se pensarmos que muitas vezes grandes artistas da música brasileira compõe sambas, como Chico Buarque e Caetano Veloso, mas também grandes sambistas considerados “cult” vieram de posições mais baixas, Cartola seria o melhor exemplo. O que o pagode dos anos 90 teve de diferente foi a diferença de concepção, com um postura extremamente profissionalizada, com grande peso da indústria cultural, e fazendo mistura com outros ritmos, como o rap, além de incorporar instrumentos como o sax e o teclado que antes não tinham uma importância grande nas rodas de samba. Essa postura agradou, e conquistou um espaço que o samba não tinha, porém, ao mesmo tempo abriu uma janela para quem quisesse conhecer o gênero pudesse. Penso que a partir daí o samba ganho o peso da tradição, as vezes exagerando nas críticas para mostrar a diferença entre os trabalhos, e o pagode o título de música da “massa”, sem conteúdo. Espero ter respondido Luan!

  2. Muito boa a visão histórica, porém só queria fazer um adeno. Concordando com o amigo aí acima, o pagode é uma grande empreitada, na verdade da classe dominante, que na verdade tem como objetivo maior a descaracterização do samba para torná-lo mais comercializável, ou seja, deram uma repaginada para criar um estilo alternativo que vendesse mais. Pagode acaba sendo oportunista e pegando o rabo de foguete do samba, tanto que muitas vezes os dois se confundem no senso comum. Infelizmente a crítica social que o samba sempre trazia dá vez a um monte de blá blá blá como: sorria que to te filmando, fugidinha com vc etc. A mesma coisa acontece com o funk que surge como um instrumento popular de crítica e que hoje vem se tornando cada vez mais sem conteúdo. Continuam pertencendo as massas, mas ao invés de politizar as massas, servem para aliená-las.

    1. Rafael,
      primeiramente agradeço o elogio do começo do comentário. Agora, não concordo com a sua visão sobre o movimento do pagode romântico, e peço que você veja a importância que esses novos grupos dos anos 90 tiveram em questões sociais importantes da época como o racismo, abrindo um espaço que os negros não tinham na TV brasileira e abordando sim problemas sociais em algumas letras, principalmente os enfrentados pelos moradores da periferia, no texto inclusive cito uma. É bom que fique claro que o texto aborda o movimento dos anos 90, e o pagode atual merece uma outra análise que se preocupe em se diferenciar de uma visão simplista. Valeu pelo comentário!

  3. O Samba é um só, samba é pagode e pagode é samba, só sabe disso que atua como profissional no meio, a diferença é que gurmetizaram o Zeca Pagodinho, porque é legal ver sambista falando frase de efeito pra ser piadista social, rir da desgraça tomando uma cerveja e marginslizaram a geração 90 de rapazes que conseguiram espaço na midia, sem internet, que não existia na época e sem a rede Globo, aí ficou perigoso!
    Enquanto não conseguiram criar genericos de Salgadinho e Compahia Limitada para poderem dissipar o samba do pagode, enquanto não conseguiram tirar do foco esses jovens que impactavam com opiniões, postura e vestimenta, enquanto não detonaram os idolos da periferia, não sossegaram.
    Aos poucos foram branquificando o samba criaram, arrocha ( sertanejo ) que nada mais é que o samba duro da Bahia.
    Sim conseguiram separar o samba do pagode e branquificar a história do samba que é de origem afro baiana .
    Se os astros dos anos 90 não fossem pedidos de desenvolver todo seu potencial, esse país correria um sério risco de ser comandado sim pelo próprio povo, porque o que esses jovens, conseguiram foi tirar o poder dos burgueses atraves de sua arte.

  4. Aos poucos as pessoas começam a perceber que os pagodes dos anos 90 eram na verdade uma evolução musical. Como tantos outros já o fizeram.
    Temos por princípio denegrir o que não entendemos e isso acontece até hoje.
    Samba e Pagode são a mesma coisa, sertanejo universitário e sertanejo de raíz idem.
    Não podemos condenar um artista a cantar algo que ele não vive e não sente.
    Pedir para que alguém reescreva Cartola ou Adoniram é como uma tentativa pífia de copiar algo que essa não viveu e nunca viverá.
    Cada época com suas influências, fortificam o nosso segmento e com respeito aos grandes mestres, seguem suas próprias caminhadas, rompendo barreiras invisíveis aos olhos da grande massa.

  5. Concordo com tudo, apenas sua pesquisa se equivocou sobre a difusão dos cabelos descoloridos pelo Belo e Rodriguinho rsrsrsrs. De resto tá maneiro. Parabéns pelo post!

  6. A verdade é que muitos julgam e poucos se aprofundam para entender o que esses grupos conquistaram.
    É equivocado sair fazendo comparações. Os grupos ganharam a mídia porque conquistaram as massas. Seja na própria periferia como na alta sociedade. Algo espontâneo que traduziu a musicalidade dessa turma toda. Que foi e agiu como eram. Não se moldaram para agradar. Abraços

  7. Que maravilha esse texto!!! Fui a primeira locutora mulher (e negra) a ser contratada pela rádio Transcontinental FM, em 1992, por isso faço uma única correção a programação até 1998 era 90 por cento samba e o chamado pagode, como ficou conhecido o movimento em que se destacaram centenas de grupos de samba, geralmente formado por jovena negros e das periferias. Até eu que sou Claudia Alexandre, fiquei conhecida pelo pseudônimo Claudinha Alexandre. Muito bom relembrar!!!

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