VÔVÓ

Eu acredito que todo dia é dia de homenagear aqueles que amamos e por isso fico muito triste ao perceber que nossas datas comemorativas se transformaram em um pretexto chulo para comprar, comprar, comprar. Mal nos recuperamos das dívidas do Natal e vem o réveillon (roupas brancas só se forem de grife!), o carnaval (e eu preciso de uma fantasia nova!), a páscoa (somos porcos a chafurdar numa lama da kopenhagem), e então o dia das mães, dos namorados, dos pais, das crianças, dos avós, da prima da manicure da vizinha da tia e, antes que nos demos conta, o Natal de novo. Onde foi parar o valor sentimental do ato de presentear?

Não sou contra presentes, só não gosto de transformá-los numa obrigação. O presente pelo presente é banal e insignificante. Aliás, qualquer coisa como um fim em si mesmo o é. É tão melhor quando somos surpreendidos por um “achei isso a sua cara e resolvi te dar” fora do contexto das comemorações! Ou um simples “lembrei de você” que transforma aquele dia qualquer em uma data memorável, mesmo sem outdoor ou comercial de TV.

Resolvi que hoje vai ser um desses dias.

Ontem passei à tarde com meus avós. Que pessoas maravilhosas! Deve ser muito bom envelhecer dessa forma: cercados de filhos, netos e de tudo o mais que construíram ao longo da vida. Dá gosto de ver o amor que eles nutrem um pelo outro, há 54 anos. Fiquei muito tempo observando seus mínimos gestos, o jeito de andar, de falar, de comer. Morri de rir quando meu avô confundiu a luz de um poste com a lua e quando minha avó provou a sopa do restaurante e disse: modéstia parte, minha é muito melhor!

Vovó é a matrona da família, o pilar que mantêm as paredes em pé. Está sempre de bom humor, pensando positivo e olhando para frente, auto-estima lá no alto. Ontem no carro ela disse: Modéstia parte, eu dirijo muito bem! Minha avó ganharia uma nota escrevendo livros de auto-ajuda ou dando palestras motivacionais.

Já o meu avô é o extremo oposto. Vive dizendo que a vida é muito complicada e que não é possível mudar ninguém. Engraçado ele nunca ter percebido que mudou, para melhor, a vida de um monte de gente. Nunca conheci um homem tão bondoso quanto ele, é a generosidade em pessoa.

Ontem, sentada em frente a eles no restaurante, me lembrei das mamadeiras de leite de bombom, dos chás de erva doce entupidos de açúcar, dos mistos quentes de bisnaguinha, do vocabulário arcaico que inclui palavras como cobre-leito, urinol, arredar, esperdício; tão típicos dos meus avós, e resolvi escrever esse texto para me redimir por todos os anos em que eu achei que um embrulho de papel com um CD ou uma roupa dentro eram capazes de falar por mim.

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