Espera arrombar!

No último sábado, dia 1º/5, um turista dinamarquês que fazia trilha na Floresta da Tijuca morreu. Ele seguia o percurso junto com mais cinco gringos quando o corrimão enferrujado que deveria ajudá-lo no trajeto arrebentou e ele caiu ribanceira abaixo. Stephen Skelton só parou de despencar no Rio da Viúva, com ferimentos graves. O resgate, que deveria estar a postos no Parque, demorou uma enormidade para chegar. Stephen só conseguiu ser atendido por um médico mais de meia hora depois, praticamente sem vida.

A Administração do Parque da Tijuca disse que vinha pedindo há tempos à Prefeitura investimentos em infra-estrutura e pessoal qualificado para efetuar resgates. Rodrigo Dantas, secretário responsável pelos parques do Rio de Janeiro, defendeu-se da acusação de negligência por parte do governo, afirmando que a secretaria já tinha um projeto de reurbanização dos parques cariocas: “A intenção é que até 2012 tenhamos reformado todos os 1.134 km de trilhas da cidade. Faremos uma inspeção em todas estas vias durante a semana e interditaremos as que não estejam dentro das normas.”

A morte do gringo numa trilha carioca é chocante, né? Só que é mentira. Inventei tudinho: nomes, datas, dados. Porém, a notícia é verossímil porque já estamos acostumados a ver uma tragédia banal ocorrer e depois todo mundo se compadecer e as autoridades lançarem mão de remendos de emergência.
E o pior é que, enquanto escrevo, uma infinidade de coisas parecidas estão para acontecer. Poderia ter inventado que uma van atropelou um menino e o governo investigará o transporte ilgeal, que uma favela pegou fogo devido aos gatos e subitamente descobrimos que metade do Rio não paga energia elétrica ou que vazaram milhões de litros de esgoto na praia porque (oh!) nosso sistema de tratamento é uma merda. O cardápio é variado, bastas escolher.

Esse menu farto não é acaso. Temos todos, desde o faxineiro até o presidente (porque o faxineiro sempre se fode?), a cultura de não prevenir e depois dar remédios paliativos. Foi assim no caso do morro do Bumba, Gunga, Dumba, sei lá o nome, que desabou durante as enchentes por ser construído (e urbanizado pelo governo!) em cima de um lixão. E estamos vivendo isso neste momento, atrasando as obras da Copa, um atraso que foi classificado pela FIFA como “incrível”. Que glória.

Para o brasileiro, é melhor remediar do que prevenir. Prevenir é chato, remediar é heróico. Surgem os heróis da enchente, os heróis que perderam tudo, os heróis da limpeza da praia, os heróis que doam roupas pros desabrigados, os heróis do resgate. Uma nação de heróis que não deveriam ser e da prevenção que não é. No Brasil, a graça é esperar arrombar a porta para depois botar a tranca.

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Um comentário sobre “Espera arrombar!

  1. gostei.

    tem um texto ótimo da clarice lispector (acho que é dela) em que ela vê um menino pedindo dinheiro pra comprar um doce, ela compra o doce pro menino e se sente ótima. em seguida, ela pensa: é preciso ter alguém sem dinheiro pra sequer comprar um doce para que ela se sentisse daquele jeito. não seria melhor o menino ter o dinheiro para comprar o doce? mas aí como ela se sentiria bem consigo mesma? aí a gente vê uma contradição engraçada das pessoas… se sentem bem ajudando aqueles que têm menos, mas não suportariam a ideia de que esses não tivessem menos, até pela, de certa forma, inutilidade que traria ao próprio. pra quer sirvo se não preciso ajudar ninguém ou algo assim… o morro do bumba em niterói caiu e o que aconteceu? dondocas de icaraí (bairro nobre de niterói) doando roupas velhas e sacos de arroz e achando que são as filantrópicas do universo. é emputecedor… a gente vê aí o poder da caridade e das instituições que se erguem encima dela, como que a mesma não só, como você mesmo diz, não previne o problema de acontecer, mas necessita que o mesmo aconteça e como que isso alimenta egos alheios. que abutres… 😦

    ps: eu doei para as vitimas do bumba e em Teresópolis também… claro que não to dizendo que medidas emergenciais não são necessárias, claro que são. Mas se paramos aí são medidas para nossos egos e consciencias sossegarem apenas.

    pps: por mais que nossas dondocas niteroienses tivessem se mobilizado quando o morro caiu, já foram feitas inúmeras manifestações dos desabrigados por abrigo (ainda estão desabrigados) e foram sumariamente ignoradas… em contrapartida, as dondocas fizeram uma manifestação contra a violência em niterói – leia-se icaraí. foi imensa. resultado: aumentou-se o policiamento – em icaraí – em menos de uma semana. bueno… e cadê as casas dos caras? isso mostra um pouco da face da minha amabilíssima cidade.

    Só maaaais uuuum adendo… remédio vende mais! ok, me chame de ditador anti-capitalista, mas é um fato. a cura é definitiva, uma situação sem prevenção tende a gerar mais lucros, infelizmente. pronto, cabei.

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