Homem Cachorro

Por Isadora Libório

Hoje, enquanto fazia a minha tradicional caminhada noturna, encontrei com meu porteiro, Edimilson, levando o cachorro do vizinho para passear.  Paramos para conversar e ele me disse que todas as noites, desde 2007, passeia com o tal de Tander. Aparentemente os donos estão tão ocupados (há cinco anos!) que tiveram que incumbir o porteiro da tarefa de dar atenção ao pobre bichinho.

Achei a situação tão triste, que resolvi dedicar um texto inteiro ao Tander, que, embora não saiba ler, falar, nem colocar seu próprio cocô num saquinho plástico, merece, pelo menos uma vez na vida, o carinho de alguém que não esteja sendo pago para isso.  

O que leva uma pessoa a comprar um cachorro se não vai ter tempo de cuidar dele? Para que eles seja um objeto decorativo móvel? A única diferença entre um abajur e um cão é que abajures não saem do lugar, enquanto cães podem se deslocar sozinhos e assim enfeitar diferentes cômodos da casa? Ter bichinhos de pelúcia já virou démodé, agora o cool é ter bichos de verdade!!

E se a função de catar os cocozinhos do bichano na calçada lhe parece escatológica demais, nada melhor do que delegar a função a outro (pagando uma quantia menor do que a que você gasta semanalmente na manicure). Afinal, nem pensar em estragar o esmalte numa atividade tão indigna de uma lady. Eca!

Ver o cachorro usando uma blusinha azul (última moda entre os cães) ser guiado pelo porteiro me fez pensar em como nossa sociedade valoriza o ter em detrimento do ser. Desde quando cachorros necessitam usar roupas?  Garanto que o Tander gostaria muito mais de ter atenção dos donos do que de um armário cheio de roupinhas, pantufinhas e fraldinhas para cães.

E olhem que eu nem precisei ter um cachorro para saber disso. Só tive dois animais de estimação na minha vida. Uma passarinha chamada Maria (a ave Maria, que Deus a tenha!), que morreu entalada com o próprio ovo (imagine um periquito tentando parir um ovo de galinha, foi mais ou menos assim) e uma gata chamada Christie (a gata Christie) que no Natal comeu todas as luzinhas da árvore, o que me fez passar parte significativa da minha infância correndo atrás dela para ver se ela acendia ao peidar. Mas Christie era uma gata com pedigree e nunca soltou um punzinho na minha frente (ou talvez tenha até soltado, mas só que nunca acendeu).

Minhas experiências com animais, como vocês podem ver, foram muito traumáticas, o que me fez perder a vontade de comprar qualquer pet depois. Para se ter uma ideia, até hoje eu choro quando vejo uma árvore de Natal.

Traumas à parte, voltemos a falar do pobre cãozinho. Tander é que nem aquela roupa que você comprou e nunca vestiu, aquele sapato que nunca usou e aquele sofá chique que enfeita a sua sala, mas você nunca teve tempo de sentar (porque passa o dia inteiro no trabalho). Tander é o filho criado pela babá enquanto você faz pilates, é o bebê que você tem nojo de trocar as fraudas. Tander é o fruto de uma sociedade que terceiriza não só o ensino e a saúde pública, mas também o carinho, o amor e as relações afetivas.

No fim das contas, somos mais cachorros do que nossos próprios cachorros. 

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2 comentários sobre “Homem Cachorro

  1. Terceirizamos a família, o afeto, o carinho, o amor, a vida… Colocamos etiquetas de preço nos outros e os consumimos até que estejamos satisfeitos. Uma vez cheios, largamos até que precisemos usar de novo. Que filho fofo que tenho, eu amo ele, ele me ama, mamãe vai pra academia f***r com o personal trainner, fica aqui com a Marinette, bebê. Marinette!!! Troca a fralda, brinca com ele, faz comida e faz ele calar a boca!!! Muito bom ter um cachorro até o momento que percebemos que ele cagará no tapete persa se não passear com ele… mas argh!!! que saco!!!! to vendo 90210!!!! Porteiro!!! É contigo mermo!!! Finge que você é pago pra isso e vai passear com meu cachorro, e não ouse reclamar, entenda seu lugar na hierarquia do prédio!

    E quando menos percebemos…
    BUM!
    Estamos na prateleira daquele estabelecimento comercial que tanto falam no jornal, aquele ser de humor variável, que tanta gente venera… o (OH!!) Mercado! Se compramos, somos comprados.

    Somos tão tão tão egocêntricos, tão voltados para nossas próprias tripas (passamos o umbigo já), que não percebemos a necessidade de cuidar e deixar ser cuidado. Queremos ser cuidados o tempo todo, nos vitimizamos o tempo todo, e se alguém está disposto a se doar para nós, sugamos até a última gota desse ser. Sugamos pois esquecemos que o ser humano só é completo quando cuida também. Aliás, algumas tribos indígenas vêem isso, a questão da humanidade e do parentesco se estabelecerem através do cuidar e ser cuidado. A psicologia contemporânea está vendo isso também, a necessidade do contato, do se doar e deixar-se ajudar… Sem isso, somos incompletos, falta algo e, como falta, tentamos preencher, só que preenchemos sugando mais de mais gente/coisas, pois é esta a solução que nos vendem (e que compramos, pois de certa forma funciona, efêmera, como ópio, por que não?). A depressão e o egoísmo são problemas (necessários!) e consequências crônicas dessa “sociedade burguesa ocidental pós-industrial, bla bla bla”, e, como vê, se trata de um processo cíclico, uma espiral descendente rumo a auto-destruição do ser humano, como indivíduo, consequência da destruição do ser humano como coletivo.

    Argh! Falei pra cacete! Perdão, perdão!

  2. Isa, concordo com as suas conclusões, mas acho que temos que tomar cuidado com os meios: nem sempre alguém que paga outra pessoa para passear com o cachorro não fica com ele em outros momentos. Quem disse que, quando chegam em casa ou nos finais de semana, os donos não brincam com o Tander? Quem disse que eles não tem filhos que brincam muito com ele, mas uma criança não pode sair sozinha por aí levando um cachorrinho… As situações são complexas, as relações idem. Você sabe disso muito mais do que eu. O seu texto tá ótimo, mas todos temos que tomar cuidado com avaliações precipitadas a respeito do que acontece ou deixa de acontecer em cada família. Ainda mais a respeito de uma coisa ainda mais complicada: carinho, sentimento, amor… Muitos beijos pra você. Sinto a sua falta!

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