A saudade serve ao ser

Por Isadora Libório

Apesar de ser um dos temas mais freqüentes na literatura, a saudade é apenas abordada como algo negativo, que angustia o homem. No entanto, é justamente dessa angustia que se alimentam as inspirações das mais brilhantes manifestações artísticas, mostrando que esse sentimento é o verdadeiro combustível da humanidade.

O que seria de Charles Baudelaire sem a falta da mulher amada? E de Carlos Drummond de Andrade sem as lembranças saudosas de Itabira? De Casimiro de Abreu sem as memórias nostálgicas de seus oito anos? A ausência é, sobretudo, não só importante para a literatura, mas também em inúmeras outras facetas da vida humana. É a lembrança que mantém o outro vivo em nós, mesmo que falecido ou distante esteja materialmente.

Todos já sentimos a latente dor da perda de quem se ama, da infância que não volta mais, daquilo que se foi para sempre. Desde pequenos fomos doutrinados a lidar com a ausência. Muitas vezes, inclusive, acostumávamos tanto a ela, que na presença sentíamos falta da falta que sentíamos. Todas as tentativas de domar esse sentimento, no entanto, são vãs. É ele quem exerce sobre nós o real controle.  A saudade é um menino mimado que mora na gente e nunca se satisfaz.

Se não podemos compreendê-la nem adestrá-la, qual a sua serventia? A saudade serve àqueles que a deixam conduzir as rédeas da imaginação e manifestar-se na arte. Não foi Casimiro de Abreu quem escreveu seu poema. Tampouco Baudelaire ou Drummond escreveram os “seus”. O verdadeiro poeta é um menino de oito anos, que sonha com a amada que nunca teve, mora em Itabira e se chama Saudade.

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