A formalização das verdades

Por Isadora Libório

A busca pela verdade norteia as reflexões e ações da humanidade. “Quem somos?”, “de onde viemos?” e “para onde vamos?” são perguntas que o ser humano se faz há milênios e nunca obteve resposta. Outra questão nos inquieta: por que, apesar de tantos avanços científicos, não conseguimos descortinar os mistérios da existência?

A resposta para essa pergunta tão pretensiosa muito simples: simplesmente porque o conhecimento humano é limitado demais. Podemos ter computadores capazes de calcular o valor de pi com 300.000 casas decimais, satélites de última geração e incontáveis armas de destruição em massa, mas nada disso será capaz de responder o sentido estar vivo.

A busca pela verdade, portanto, apresenta-se vazia, uma vez que não existe A verdade e, mesmo que ela existisse, o homem seria incapaz de compreendê-la. Tomemos como exemplo algo que é de aceitação unânime na sociedade: a lei da gravidade. O princípio da gravitação universal é lecionado nas escolas como uma verdade absoluta, não deixando margem para questionamentos.

O que não é ensinado nos colégios é que, ao longo da sua existência, o homem já propôs diferentes teorias para explicar o sentido da queda dos objetos. Na Grécia antiga, por exemplo, a teoria mais aceita era a de que os objetos sempre iriam em direção ao local onde havia maior abundância do seu principal elemento constituinte. Essa era a maneira de explicar porque um rio sempre iria de encontro ao mar, um balão de ar subiria aos céus e uma pedra jogada numa lagoa afundaria até se depositar no fundo da mesma.

Estariam errados os gregos? E o que dizer sobre todas as demais proposições de outras civilizações? Será a gravidade um conceito universal e estático? É preciso compreender que o que tomamos como verdade nada mais é do que a aceitação de um modelo.

Analisemos a seguinte afirmativa: “a água sempre entra em ebulição a 100 ºC”. Para que isso fosse uma verdade absoluta, a pressão deveria ser constante em todos os pontos do globo. Essa teoria só tem validade nas condições normais de pressão, isso é, ao nível do mar.  Quem foi que disse que os moradores da Região Serrana do Rio de Janeiro vivem em condições anormais de pressão?

Entramos, nesse momento, em outro mérito da discussão: quem dita o que é e o que não é normal? De maneira geral, as normas são feitas por aqueles que detêm o poder. Infelizmente, tal fator pesa muito mais do que a coerência na hora de formalizar as regras. O resultado disso são definições de padrões arbitrários, como a divisão entre Hemisfério Norte e Sul (que nos dá a impressão de superioridade das potências europeias). Essas formalizações estão tão banalizadas e interiorizadas em nós que raramente questionamos os interesses por trás delas.

A noção de verdade é sempre fruto da conjuntura política, econômica e histórica na qual foi concebida, e, por ser um produto humano, será sempre questionável, uma vez que o ser humano não consegue se despir por completo das suas impressões subjetivas e do contexto no qual está inserido.

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