As síndromes do empreendedor social

O conceito de empreendedorismo social é lindo: o pragmatismo da iniciativa privada associado ao legado benéfico do terceiro setor. Até ai, tudo bem. O problema é que a emoção e o discurso desses empreendedores na maioria das vezes não dão origem a ação nem a impacto. Discussões longas e maravilhosas, ideias teoricamente transformadoras e no fim das contas nada acontece. Baseado no que li e vivi, listo as cinco (irritantes) síndromes dos empreendedores sociais:

1) Síndrome do iPhone – Boa parte das pessoas acha que deve empreender socialmente apenas com uma ideia de grande impacto, um “novo iPhone”. Por que começar pequeno se o problema é grande? A busca é pelo novo Grameen Bank, por fazer diferença na estatística, salvar milhões! No fim das contas, vira uma desculpa para nunca ir à ação, afinal, “Ainda não temos ‘A’ ideia!”

2) Síndrome do lalalá eterno – Atuar onde? Na educação? Como? Com um pré-vestibular? Não é melhor um curso profissionalizante? Pago ou gratuito? Com ou sem ajuda do governo? Mais teórico ou mais prático? Se for muito prático, será que vamos conseguir fomentar a cidadania? E por ai vai: um debate eterno, que leva a mais debate, que leva a mais debate e no fim das contas não se faz nada. Um lalalá eterno.

3) Síndrome do ar-condicionado – “Todo mundo quer ir pro céu, mas ninguém quer morrer”. A frase resume bem a postura de muitos empreendedores sociais que querem mudar o mundo, mas na hora de sair do ar-condicionado, subir o morro, passar perrengue e assumir os riscos inerentes a qualquer negócio é uma dificuldade só. São os transformadores do carpete.

4) Síndrome do “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena” – Todo mundo que gasta tempo, dinheiro, energia, etc em prol de outras pessoas merece os parabéns. Até ai tudo bem. Porém, essa boa vontade acaba sendo ilimitada, dando ao empreendedor carta branca para fazer coisas ou falar de ideias sem o menor sentido. Vi muitas ideias péssimas, debates inúteis e atitudes ridículas sendo toleradas devido a esse clima de “tudo vale a pena quando a alma não é pequena”.

5) Síndrome carioca – Dei esse nome à síndrome porque é impressionante a capacidade do carioca de não retornar telefonemas e e-mails e não cumprir datas, prazos e horários combinados. Durante o debate tá tudo ótimo, mas quando chega a hora do empreendedor passar para a ação, está todo mundo “enroladasso, sem tempo”. Se pra marcar a reunião é um parto, chegar na hora é impossível. Daí a cada pessoa cumprir os prazos e funções combinados, mais 9 meses de gestação. E no fim das contas grandes ideias morrem sem nascer pela dificuldade desproporcional do empreendedor de retornar um e-mail ou ligação, marcar uma reunião e cumprir uma hora e um prazo.

Após sofrer bastante nesses últimos anos com essas síndromes, hoje divido os empreendedores sociais em dois. Não quero saber quem se formou onde, quem acha o que, quem fala japonês ou alemão, quem é gerente da Shell, quem é craque na informática. Pra mim, a ação é o que determina de que lado cada um está. Quem faz alguma coisa, está de parabéns. A massa que não faz nada para mim dá na mesma.

Anúncios

Um comentário sobre “As síndromes do empreendedor social

  1. Muito bom meu caro! Estou tendo problemas exatamente com isso agora. Quando começa o assunto de negócios sociais todo mundo se mostra animado, fala que tem muito interesse no tema e que vai ajudar em tudo que puder. Porém, quando chega a hora de efetivamente participar e botar a mão na massa, a maioria se mostra ausente e você fica sem saber com quem pode contar de fato.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s