Manual de sobrevivência universitária

Por Isadora Liborio

 

Capítulo 1:

 

1º dia

Será que eu vou me adaptar? Será que povo da turma vai gostar de mim? E se não gostar, o que eu faço? E se eu não gostar do curso? E se eu descobrir que geografia não é comigo e o meu negócio é engenharia da computação ou nanociência? Que merd** é essa de nanociência? Foi assim, cheia de dúvidas e vazia de respostas, que eu fui para o meu primeiro dia de faculdade.

Com frio na barriga, as mãos suando e um receio enorme de estar metendo os pés pelas mãos, sentei-me junto a milhares calouros para assistir a uma palestra de boas vindas. Para que serve isso, como funciona aquilo, qual é o compromisso do estudante, quais os objetivos da instituição… Ah, e um monte de siglas: PET, CAPS, CACS, NIMA, CRIMA… Tudo entrou por um ouvido e saiu pelo outro. As únicas siglas que me vinham à cabeça eram: MTD (Me Tirem Daqui!) e QVPE (Quero Voltar Para a Escola!).

Depois de duas horas de blá, blá, blá, a palestrante começou a chamar curso por curso para que os calouros se encaminhassem ao seu novo departamento com seus futuros colegas de turma. “Calouros de Comunicação Social: aqui ao lado com o Prof. Sérgio”, e umas 600 pessoas se encaminharam para a direita. “Calouros de Direito: para a esquerda”: e centenas de jovens se levantaram. “Calouros de Engenharia (…)”, mais 720 de pé. “Calouros de Geografia, com o professor André”, e levantaram-se nada mais do que 11 gatos pingados. Eu disse: ONZE!

– Tá faltando muita gente? – arrisquei perguntar.

– Só umas 6 – respondeu o professor.

“COMO ASSIM, 6 PESSOAS?? SÓ HÁ 17 ALUNOS NO CURSO?? FERROU!! Como eu vou fazer amigos num universo de tão poucas pessoas? Se eu ficar amiga de 1/5 da sala só terei 3,4 amigos! Quer dizer, 3 amigos inteiros e 0,4 de outro. EU VOU SER AMIGA DE UM PÉ!!!” – era só o que eu conseguia pensar.

Chegamos à sala e depois de recebermos várias informações específicas sobre o curso, fomos com os veteranos conhecer a casinha de geografia. Na minha cabeça, eu imaginava uma confortável sala de estar, com ar condicionado, móveis clean e um mordomo a porta. Mas a realidade era bem mais… suja. Sofás rasgados, poltrona quebrada, pôsteres de bob Marley nas paredes. “O que eu estou fazendo aqui mesmo??”.

-Podem ficar a vontade. Não tão à vontade porque o sofá ta meio sujo e a poltrona quebrada. É que o povo perde a linha e faz de tudo aí em cima. Tudo MESMO.

Automaticamente eu descolei as costas do sofá e sentei bem na pontinha dele para diminuir ao máximo a superfície de contato.

-Vamos, calouros, comecem a socializar! – sugeriu a veterana.

“Como você quer que eu socialize? Meu melhor amigo é um pé e eu vou engravidar de um sofá!”

A tensão no ar era quase palpável: ninguém conseguia dizer uma palavra. Depois de passarmos 10 minutos olhando um para a cara do outro, fomos “por livre e espontânea pressão” para o bar, PAGAR CERVEJA AOS VETERANOS. No bar, a mesma situação constrangedora: todo mundo olhando um para a cara do outro, tenso demais para iniciar qualquer tipo de conversa.

Eu não via a hora de poder sair dali e ir encontrar com os meus antigos amigos (os inteiros) em alguma lanchonete, cinema, loja de brinquedos… Qualquer lugar onde eu pudesse esquecer que cresci. Mas como ir embora sem ser vista? Entrar no banheiro e pular a janela? Não, complicado demais. Fingir que meu pai ligou e me mandou ir para casa? Definitivamente não! Isso é coisa de dimenor. Agora eu sou uma universitária! Mas então, o que fazer???

Foi quando eu percebi um movimento migratório (para usar termos da ciência geográfica) de pessoas saindo do bar. Era o momento que eu estava esperando! Me infiltrei no bando e, sem nem dizer tchau, saí dali o mais rápido que pude e combinei de encontrar meus amigos numa sorveteria.

Reunidos com nossas casquinhas na mão, compartilhamos nossas primeiras experiências universitárias. Todas péssimas. Uma achou que não faria amigas porque todas as mulheres do curso eram peruas fúteis. Outro se sentiu deslocado porque todos os homens da sua turma eram bombadões e pegadores de novinha na night. Estávamos todos tristes, com síndrome de peter pan e a cara toda suja de sorvete de chocolate. Até que, depois do chororô, começamos a rir das nossas próprias vicissitudes e, apesar das calorias do lanchinho, no final do desabafo estávamos todos bem mais leves.

Fizemos um pacto de não tomar nenhuma decisão precipitada (como trancar a faculdade, o que eu estava prestes a fazer) e dar tempo ao tempo para tirar uma conclusão mais fundamentada sobre a vida universitária.

E, sabem de uma coisa? Voltar à universidade no dia seguinte (e em todos os dias que se sucederam) foi a melhor coisa que eu poderia ter feito. Aos poucos eu percebi que os veteranos não eram tão malucos assim, vi que os professores eram muito bons e até comecei a achar bom estudar em uma sala com pouca gente porque deixa os alunos bem mais próximos. Ah! E hoje eu não socializo só com 3,4 pessoas! Sou amiga não só de pés, mas de pessoas inteiras!

Dica do dia:

Não se desespere, não gostar do primeiro dia de aula é mais comum do que você pensa. Depois de um massacrante terceiro ano do Ensino Médio, costumamos colocar muito altas as nossas expectativas para faculdade e, por isso, qualquer coisa que fuja ao esperado parece o fim do mundo. Dê tempo ao tempo antes de tirar conclusões precipitadas sobre o curso ou cristalizar opiniões taxativas sobre seus colegas de classe. E lembre-se: todos os calouros estão no mesmo barco que você: os meios receios, os mesmos anseios. Aproveite essa fase de adaptação para conhece-los melhor, você pode se surpreender!

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Um comentário sobre “Manual de sobrevivência universitária

  1. Ah, que fofaaa! Bem que a Ana disse que seu texto tava fofinho.
    Que bom que você não gostou só do meu pé e hoje posso ser uma amiga por inteiro.
    Foi ótimo te conhecer, Isa.
    Parabéns pelo texto, me fez rir! =P

    Bj bj

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