Paradoxo

Por Isadora Liborio

 

Qual a massa de Fe (56g/mol) depositada no catodo de uma célula eletrolítica, contendo solução aquosa de FeCl3, quando através dela passa a carga de 0,3 faraday?

Que P*¨* é essa?

Qual a massa de Fe (56g/mol) depositada no catodo de uma célula eletrolítica, contendo solução aquosa de FeCl3, quando através dela passa a carga de 0,3 faraday? – Repetiu Caderno.

Eu já ouvi, Caderno, gritar não vai fazer com que eu entenda. Nada vai.

Olho para as dezenas de folhas de papel que se abarrotam sobre a cama. Fichas de exercício, blocos de anotações, livros de química.

AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!

Não agüento mais ouvir falar em propriedades coligativas, eletrólise, ddp de oxi-redução, catodos e anodos de sacrifício! A única coisa que está sendo sacrificada aqui sou eu! Cadê esse anodo que não aparece pra fazer o sacrifício de estudar química por mim enquanto eu vou à praia, ando de bicicleta ou leio um livro?

Por que mesmo eu estou aprendendo isso? Ah, sim… Para passar no vestibular, cursar uma boa universidade, ingressar no mercado de trabalho, atingir independência financeira, comprar um apartamento, morar sozinha e, posteriormente, casar, ter filhos, pagar uma boa escola para que eles possam passar no vestibular, cursar uma boa universidade e dar continuidade ao ciclo.

O plano parece perfeito.

Será?

Que besteira minha, é claro que é perfeito. Meus avós, pais, tios, primos, todos seguiram fielmente o plano e hoje vivem bem.

Quanto tempo falta pra esse hoje chegar? Precisa demorar tanto? Por que eu não posso viver bem agora?

O que é viver bem? É ser feliz ou ter independência financeira? Por que a palavra felicidade não foi citada nenhuma vez nesse plano?

Concentre-se! Não é hora de questionar as regras da sociedade! É hora de descobrir a massa de ferro depositada no catodo.

Você sabia que os primeiros indícios da utilização do ferro datam de 4 milênios a.C. pelos Egípcios e Sumérios? Mas o domínio dos métodos de afeiçoamento desse material só ocorreu entre os séculos XII e X antes de Cristo, no Oriente Médio, inaugurando a chamada Idade do Ferro.

E eu me distraio novamente…

Sabe qual a vantagem de saber tudo isso sobre o ferro? Nenhuma. Infelizmente (para mim) ou felizmente (para todos os alunos robozinhos do sistema), vestibular não cobra nada disso.

Para passar para uma boa faculdade, o aluno não precisa saber o contexto histórico de nada. Aliás, melhor até que não saiba. É muito mais fácil acreditar que um belo dia Newton teve um insight e acabou por postular suas 3 famosas leis, as quais chamou de Leis de Newton, em uma homenagem narcísica a ele próprio.

Será que você não consegue parar de reclamar do sistema por 1 minuto sequer? Você vai poder questionar à vontade quando estiver com a vaga garantida na universidade. Antes disso, concentre-se na química!  – bradou a voz da minha racionalidade. – Ou você quer levar BOMBA na escola?

A bomba atômica foi criada na década de 40, a partir de estudos dos cientistas como Albert Einstein.  Em 1939, ele recomendou que Franklin Roosevelt começasse um programa nuclear para produzir a arma de destruição em massa.

Anos mais tarde, Einstein lamentou a participação que teve no desenvolvimento da arma que levou tantas pessoas à morte, dizendo que foi o maior erro de sua vida.

Esse sentimento de amargura ao ver suas invenções serem usadas como aparatos militares de ataque foi sentido por inúmeros inventores. Santos-Dumont, por exemplo, entrou em depressão profunda quando os aviões que idealizou foram usados na 1ª Guerra Mundial. Em 1932, cometeu suicídio após ver aeroplanos atacarem o Campo de Marte, em São Paulo.

Pensando bem, é até melhor eu não entender nada de física nem de química, assim eu não corro o risco de ver minhas invenções usadas para causar morte e destruição.

A única pessoa que será morta e destruída serei eu, amanhã, na prova de química.

Chega! Não dá mais pra enrolar. Talvez a voz da minha racionalidade esteja certa: devo deixar para questionar as normas pré-estabelecidas pela sociedade quando já tiver passado no vestibular, e para que esse dia chegue logo, será preciso aceitar essas normas, ao menos por enquanto.

Não é ilógico? Até para me rebelar contra algo eu preciso aceitá-lo antes.
Química, eu me rendo! Faça o que quiser de mim!

A realidade é mesmo um grande paradoxo.

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Um comentário sobre “Paradoxo

  1. Muito bom, Isadora.
    O pior é que provavelmente vc vai passar no vestibular, penar para ingressar no mercado de trabalho, provavelmente trabalhar em alguma coisa que não terá nada a ver com tua formação (porque a exigência de diploma superior é uma falácia do mercado de trabalho para disfarçar o baixo nível de educação do país – exatamente porque não se estuda História, por exemplo), Você talvez compre um apartamento que levará a vida toda para pagar e depois de pago estará velho, exigirá reformas, consertos, etc… Passará a vida vivendo bem e pagando centenas de carnês de prestação, impostos, e ainda terá de casar e ter filhos, talvez um ou dois divórcios, ter a sensação de independência financeira dependendo da boa vontade do seu patrão…
    Não pode viver bem agora??? se viver bem significa consumir, você precisa entrar na lógica paradoxal do mercado e fazer tudo isso ai, inclusive estudar química para passar no vestibular… etc etc etc … e, claro, ficar ligada na Globo para continuarem reforçando os conceitos de viver bem…

    Ou então, olhar para o futuro com outra perspectiva, dar um pouco de ouvidos para seu coração e manter a razão dentro do equilíbrio do bom senso, curtir mais poesia, estar com amigos… e também estudar química, etc etc etc sem um plano rígido linear para frente. Olhe o horizonte, veja que é amplo, e que há muitos caminhos em direção a ele… e estes caminhos se abrem em outros… Portanto, não caminhe na vida usando um GPS … esteja aberta às muitas alternativas que aparecerão… e você verá que “viver bem” pode ser um conceito que se modifica conforme a sua vida passa, as experiências se acumulam e as esperanças se tornam mais refinadas.

    Boa viagem! e acima de tudo, que Deus te acompanhe!

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