Ensino precário, sociedade caótica

(Por Isadora Libório)

Mais um ano chega ao fim: 2011 sai da vida para entrar para a história como um dos anos mais conturbados desse início de século. Revoltas no Oriente Médio, Grécia, Estados Unidos, Itália e tantos outros locais do planeta.

E o Brasil não deixou por menos. Entre os mais relevantes acontecimentos do ano no país, destacam-se: a tragédia em uma escola de Realengo (que levou 12 estudantes à morte), a revolta dos alunos da USP e as inúmeras polêmicas envolvendo o Exame Nacional de Ensino Médio.

Ao contrário do que a mídia faz transparecer, nada que ocorre no mundo é um fato isolado. Este pensamento equivocado nos dificulta o trabalho de compreender por que as coisas estão como estão. Façamos uma reflexão: o que todos esses episódios do cenário nacional têm em comum? Todos se relacionam de alguma maneira à precariedade do ensino púbico brasileiro.

Educação é a base para toda e qualquer sociedade. De um país onde o professor recebe salários vergonhosos, escolas públicas são mantidas em condições insalubres e as relações aluno-professor não são construídas com base no respeito mútuo, não há muito o que se esperar.

Outro fator que vem a aumentar o caos em que vivemos é o das escolas estarem perdendo cada vez mais seu caráter formador de cidadãos e se preocupando apenas com notas e resultados de vestibular. Em decorrência disso, alunos se tornam robôs facilmente manipuláveis, e não seres pensantes, reflexivos, que deveriam unir forças para propor melhoras a essa sociedade caótica.

Aliás, como esperar que as mudanças partam justo daqueles que passaram a vida acadêmica sendo enganados por um sistema de ensino cruel que os fez crer que inteligência era uma grandeza mensurável e quantitativa? E mais, que negligencia todos os outros 5 tipos de inteligência (motora, musical, espacial, intra e interpessoal).

“Uma criança de 30 quilos é lançada por uma janela de oito metros de altura. Calcule a velocidade com a qual ela atinge o solo, considerando desprezível a resistência do ar.” O que mais devemos desprezar para resolver a equação? A vida da criança? Os motivos que levaram uma pessoa a jogá-la pela janela? Até quando? Está na hora de pararmos de nos preocupar com a função quadrática do gráfico de mortalidade infantil para questionarmos: por que estas crianças estão morrendo? O que podemos fazer para reverter este quadro?

A escola ensina a nos preocuparmos muito mais com os números, que foram inventados pelo homem (INVENTADOS!), do que com aquilo que existe e faz parte do nosso cotidiano. Você já viu um 2 pedir esmola na esquina da sua casa? Não é o 5 que faz as pessoas mudarem de calçada por medo. É aquele menino sem camisa, pés descalços no chão sujo e cara de fome. Não é a raiz quadrada que desvia dinheiro da educação para construir uma casa de veraneio. São pessoas. Gente como eu e você.

E, portanto, ninguém além do próprio homem é capaz de dar cabo ao mal por ele causado. Exija seu direito de ter uma educação de qualidade, que vise integrar de maneira eficiente os alunos à sociedade, formando verdadeiros agentes sociais. Vamos repensar o vestibular em busca de uma maneira mais eficaz de avaliar os estudantes! Ensino humanitário, sociedade consciente.

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5 comentários sobre “Ensino precário, sociedade caótica

  1. Isa, é com muito orgulho que eu – alguém das Letras e dos textos – venho te agradecer por este ótimo texto. Está 10! Porque essa mania de valorizar mais as exatas que as humanas nas escolas reflete o nosso mundo: mais preocupado com o que pode contar (principalmente em notas) do que com o que pode sentir.

  2. Vou repetir o que eu te falei e incluo no meu elogio o trabalho de todas as pessoas do pecep que nadam contra essa corrente que você denuncia no seu texto: que mulher maravilhosa que você é! E que, acompanhada de pessoas como você, faz esse trabalho lindo e, infelizmente, necessário. Vamos juntos pra ter força nessa luta por uma educação pública de qualidade e igualitária.

  3. De fato, o PECEP é uma linda iniciativa, mas melhor mesmo seria se os brasileiros tivessem acesso a uma educação pública de qualidade, que os preparasse de verdade para o vestibular e para a vida.
    Mas como, infelizmente, essa não é a realidade do Brasil, que bom que pelo menos eles podem contar com o empenho de voluntários que buscam fazer sua parte na construção de uma realidade mais igualitária.

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